Indústria Verde

paulo gala

“Precisamos mais do desenho de políticas que nos ajudem a fazer a transição verde”

Economista Paulo Gala afirma que a sustentabilidade é grande oportunidade de negócios para o país, mas que ajuda do governo é fundamental para atingirmos a descarbonização

Em abril, o economista paulistano Paulo Gala foi um dos palestrantes do segundo seminário do ciclo 200 Anos de Independência – A indústria e o futuro do Brasil, promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). O tema foi Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade.

A escolha de Gala para compor a mesa não é fortuita: o economista acredita que a sustentabilidade é, de fato, uma grande oportunidade de negócios e crescimento para o Brasil. Nesta entrevista exclusiva para o Indústria Verde, Gala cita as áreas em que o Brasil já protagoniza a transformação verde e afirma que o país é um dos maiores players do mundo na capacidade de fazer a transição energética. Mas pontua que, para isso, é fundamental a ajuda do governo, na forma de subsídios, leis, marcos regulatórios e financiamento público. “É uma questão de conseguir mobilizar o governo e articular com empresas brasileiras. Temos uma avenida gigantesca pela qual avançar”, resume.

Graduado em Economia pela Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Gala é mestre e doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY, economista-chefe, gestor de fundos e CEO em instituições do mercado financeiro em São Paulo. É professor de economia na FGV-SP desde 2002. “Brasil, uma economia que não aprende” é seu livro mais recente.

Indústria Verde – Você costuma afirmar que a sustentabilidade é uma grande oportunidade de negócios para o Brasil avançar. De que forma a indústria brasileira está aproveitando essa oportunidade? A reindustrialização já está ocorrendo?

Paulo Gala – Acho que sim. Há várias fronteiras em que o Brasil já está se reindustrializando, investindo e avançando. Eu destacaria a energia eólica, o hidrogênio verde, o biogás e o biometano, o etanol e o etanol de milho, só para citar alguns.

Quanto à energia eólica, os parques eólicos do Nordeste são uma incrível fronteira de investimentos. Hoje, mais de 10% da energia do país é gerada a partir de parques eólicos – inclusive com produção das turbinas eólicas por empresas brasileiras. Este é um belo exemplo de onde o Brasil avança mais. Hoje a gente produz mais energia eólica do que em Itaipu: isso é muito simbólico!

Também estamos avançando no campo do hidrogênio verde. Há um incrível pólo sendo construído no Ceará, no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, com várias empresas já se instalando e colocando capacidade para produzir nos próximos anos. Este é um típico caso de industrialização verde, com plantas capazes de produzir hidrogênio verde – o que pode resultar até em amônia verde, algo que ajuda a nossa cadeia de fertilizantes.

E o Brasil é uma das referências mundiais na produção de etanol, com destaque para o etanol de segunda geração, com o bagaço da cana, e para o etanol de milho, uma área de industrialização que avança no Centro-Oeste, em Mato Grosso.

Agora avançamos também em biogás e biometano, uma outra fronteira interessante de reindustrialização e grande oportunidade para o Brasil avançar ainda mais. Claro: a gente precisaria de mais volume, de mais escala – mas há várias fronteiras em que o Brasil avança, sim.

IV – Investir em energia verde é hoje um dos maiores trunfos do Brasil no cenário internacional – se não o maior? Somos protagonistas nesse campo?

PG – Acho que as áreas que citei são áreas em que o Brasil pode realmente virar referência mundial. O problema é que o custo de transição é alto. Precisa de governos preocupados em desenhar políticas públicas e marcos regulatórios. O governo precisa correr com o marco regulatório do hidrogênio verde, por exemplo.

Em segundo lugar, vem a parte da infraestrutura. O governo está começando, especialmente via Petrobras, a construir rotas para trazer o gás do pré-sal para o continente. Temos já duas rotas construídas, mas dependemos muito desse tipo de investimento em infraestrutura.

No geral, precisamos mais do desenho de políticas que nos ajudem a fazer a transição verde – porque o Brasil está com tudo na mesa para fazer o hidrogênio verde, o etanol, o etanol de segunda geração e energia solar e eólica, mas existe um custo de transição que precisa ser superado. O governo pode ajudar por meio do financiamento público. Os parques eólicos do Nordeste, por exemplo, devem-se em grande medida ao risco que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tomou lá atrás para fazer esse investimento.

Os planos de transição verde precisam de muita ajuda do governo – seja com subsídios, seja desenhando as leis e os marcos regulatórios, seja com financiamento público. Então é uma questão de conseguir mobilizar o governo e articular com empresas brasileiras. Temos uma avenida gigantesca pela qual avançar, especialmente quanto ao hidrogênio verde e à amônia verde e os fertilizantes.

IV – Por vezes duras, as avaliações estrangeiras sobre nossas políticas em sustentabilidade são injustas?

PG – Fizemos muitas mudanças ruins nesse governo quanto ao meio ambiente. O desmatamento na Amazônia, por exemplo, está muito ruim. A nossa imagem lá fora está péssima nesse sentido. E, se não fizermos uma transição energética, o planeta não vai aguentar – e isso caiu no colo do Brasil.

Agora, uma coisa é a conjuntura, outra coisa é a estrutura. O Brasil continua sendo um dos grandes players mundiais em potencial de energias verdes e transição energética. Temos um dos maiores parques hídricos do mundo; um potencial eólico absolutamente fantástico; um potencial fotovoltaico também incrível, especialmente no Nordeste. Temos o etanol já amplamente consolidado – e, inclusive, o grande potencial de desenvolver no Brasil uma indústria de metanol (que já está dando seus passos iniciais).

Apesar de a nossa imagem não estar boa no exterior, portanto, o mundo sabe que o Brasil é um dos grandes players globais em transição energética.

A questão está conjunturalmente ruim – mas, estruturalmente, o Brasil certamente está entre os top 5, os cinco países mais importantes, hoje, em capacidade de fazer a transição energética, de contribuir para a descarbonização e de produzir energia limpa – inclusive como desenvolvedor e exportador de tecnologia.

Estamos desenvolvendo parcerias com a África do Sul, por exemplo, em relação à tecnologia da cana-de-açúcar e do etanol. Temos muito a exportar e a ensinar ao mundo sobre a tecnologia do etanol de primeira e de segunda gerações. Os motores flex são um desenvolvimento incrível da indústria brasileira. Também começamos a caminhar em relação aos veículos elétricos, especialmente os ônibus elétricos totalmente brasileiros. Esse é outro belo exemplo que merece destaque. A indústria é a estrada real para o domínio tecnológico. A gente precisa abraçar isso com políticas públicas, com todo o setor industrial reunido.

 É por isso que eu costumo dizer que a transição energética, verde, é um grande negócio para o Brasil: tem muito dinheiro aí para o Brasil ganhar – e há muito a contribuir à sustentabilidade ambiental e à reindustrialização do país.