Indústria Verde

O combate à mudança climática é um caminho sem volta, destaca presidente da CNI

Em entrevista à Agência de Notícias da Indústria durante a COP-26, Robson Braga de Andrade diz que espera que sejam concluídas as regras para implementação do mercado global de carbono

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, chegou em Glasgow, na Escócia, para acompanhar a segunda semana de negociações na 26ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP-26). E espera que ela seja decisiva, com a conclusão das regras para implementação do Artigo 6 do Acordo de Paris, que estabelece o mercado global de carbono.

No entanto, Robson de Andrade destacou que, para que países em desenvolvimento, como o Brasil, cumpram suas metas de redução de emissões, é necessário que países desenvolvidos cumpram o compromisso assumido no Acordo de Paris de destinar US$ 100 bilhões anuais para financiamento de iniciativas como redução do desmatamento.

O que o senhor espera das negociações durante a COP-26?

Minha expectativa e a da indústria brasileira como um todo é que sejam concluídas as regras para implementação do mercado global de carbono e também de recursos a serem destinados a projetos de redução de emissões de gases de efeito estufa e de adaptação às mudanças climáticas em países em desenvolvimento. Mas sei que essas negociações não são simples, mas é fundamental forte vontade política de todos os países para fechar esses acordos.

Independentemente do resultado da COP-26, o combate à mudança climática é um caminho sem volta, não há escolha. Acredito que o empenho dos países em prol da sustentabilidade será cada vez mais intenso. A agenda climática é urgente e já podemos sentir os efeitos da mudança do clima em nossas vidas e também nos negócios. Eventos extremos como escassez hídrica e inundações são cada vez mais intensos e frequentes, inclusive no Brasil. Por isso, é fundamental concluir aqui na COP-26 esse pacote completo, com regras para esse mercado e recursos, para que traga resultados efetivos já nos próximos anos.

Alguns segmentos da sociedade criticam o fato de se pedir recursos para a agenda ambiental. O que o senhor pensa sobre isso?

É preciso recursos para viabilizar projetos, em especial de redução de desmatamento, em países em desenvolvimento. Eles são fundamentais para que essa agenda seja de fato sustentável e reduza as desigualdades entre os países. Inclusive, está estabelecido no Acordo de Paris o princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas, que determina que os esforços para a redução devem envolver todos os países, mas de forma que os países desenvolvidos ofereçam uma contrapartida financeira para que países em desenvolvimento consigam atender seus compromissos de redução das emissões. Precisamos fazer valer o que está no papel.

Como avalia o aumento das metas de redução das emissões do Brasil anunciadas na COP-26?

Isso é positivo, pois se o Brasil tem condições de aumentar seus esforços para reduzir as emissões, precisa fazê-lo e negociar para que os demais países também o façam, sobretudo os mais desenvolvidos.

O setor industrial brasileiro está de fato comprometido com a agenda climática?

Com certeza. O setor industrial vê a agenda do clima como uma grande oportunidade para o Brasil. Por isso, a indústria brasileira está presente na COP-26 para mostrar que tem feito o dever de casa na agenda de sustentabilidade e para atrair investimentos. O país é um dos líderes mundiais em aspectos cruciais da sustentabilidade, como elevada participação de renováveis na matriz energética (48%), com forte presença dos biocombustíveis e grande potencial no setor de hidrogênio verde, e enorme potencial no uso sustentável de suas florestas.

Reduzir emissões e zerar o balanço de carbono tem se tornado prioridade de vários setores. Muitas empresas brasileiras já se comprometeram a zerar suas emissões líquidas até 2050. O desafio é grande, mas estamos todos imbuídos desse espírito de cooperação e trabalho em prol da sustentabilidade e redução das emissões de gases de efeito estufa.

Como o setor industrial tem atuado para a conservação ambiental?

Há muito tempo, a indústria brasileira assumiu a responsabilidade com a agenda ambiental e tem trabalhado para se tornar referência no uso eficiente dos recursos naturais e aproveitamento das oportunidades associadas à economia de baixo carbono. A sustentabilidade está no nosso DNA, tanto na busca eficiência quanto na economia de recursos para ser mais competitiva e atender às exigências do mercado internacional. O mundo cobra do Brasil responsabilidade ambiental, e o setor privado tem interesse em se manter alinhado com os acordos internacionais.

A agenda econômica não seria conflitante com os interesses da conservação ambiental?

Não é possível mais olharmos a sustentabilidade de forma fragmentada, como se economia, sociedade e meio ambiente tivessem interesses divergentes. Precisamos ver que esses três aspectos se complementam e convergem. Um alimenta o outro.

Por exemplo, com investimentos em negócios sustentáveis e em agendas como a da bioeconomia, é possível aumentar o valor da floresta em pé, por exemplo, e fazer com que a própria sociedade conserve o meio ambiente ao ver efetivamente que a conservação ambiental gera riquezas e emprego e renda para suas comunidades.

O que é preciso para o país avançar mais na agenda de sustentabilidade e, de fato, converta o seu potencial em riquezas para sua população?

A pauta ambiental deve compor uma estratégia de Estado, que vá além de planos de governo e que esteja integrada a uma proposta de desenvolvimento socioeconômico do país. Sem isso, haverá apenas voos de galinha e as empresas, sobretudo as de menor porte, terão sua competitividade comprometida. Em guia que traz os principais financiadores para projetos que contribuem para a redução dos efeitos da mudança do clima, a CNI informa que nos últimos anos a América Latina e Caribe ficaram com 4,5% desses recursos – sendo o Brasil com parcela ainda menor – enquanto a Ásia recebeu 38%. Precisamos urgentemente de uma estratégia de longo prazo, inclusive para atrair mais recursos desses fundos.