Indústria Verde

No Dia Internacional da Reciclagem, Brasil comemora avanços no descarte correto de resíduos

Destinação final e ambientalmente correta de resíduos superou os 60% e logística reversa foi estabelecida como instrumento de responsabilidade compartilhada

A data é importante para todos que se preocupam com o futuro: 17 de maio é o Dia Internacional da Reciclagem, instituído pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para gerar reflexão sobre o descarte correto de resíduos.

Segundo dados do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2021, publicação de referência lançada pela Associação Brasileiras das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), a geração de resíduos sólidos urbanos no Brasil alcançou a marca de 82,5 milhões de toneladas por ano sob influência da pandemia da covid-19.

O mesmo relatório – que há duas décadas consolida os dados mais atualizados do setor – traz informações positivas sobre a geração, coleta e destinação correta dos resíduos no Brasil. O documento relata que, pela primeira vez, a destinação final e ambientalmente correta de resíduos superou os 60%; e que, com a vigência da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010), a logística reversa foi estabelecida como um dos instrumentos de implementação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos. Isso levou à implementação de sistemas de logística reversa de produtos e embalagens pós-consumo e seu retorno a um novo ciclo de aproveitamento. Alguns cases de sucesso ilustram este esforço por parte da indústria brasileira.

Mais reciclagem – Ainda de acordo com o Panorama da Abrelpe, o Sistema Campo Limpo, operado pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), evoluiu muito no processamento de embalagens de defensivos agrícolas, passando de cerca de 31 mil toneladas, em 2010, para quase 50 mil toneladas em 2020 – das quais 93,1% foram enviadas para reciclagem. O volume processado representa nada menos que 94% do total das embalagens primárias comercializadas.

A seara das embalagens plásticas de óleos lubrificantes também guarda histórias bem-sucedidas. O programa de logística reversa do Instituto Jogue Limpo, por exemplo, abrange 4.315 municípios brasileiros. Entre 2010 e 2020, a destinação adequada dessas embalagens cresceu quase quatro vezes – passando de 1.118 toneladas recicladas, em 2010, para 4.453 toneladas recicladas em 2020.

Já a Reciclanip – entidade que gerencia a logística reversa de pneus inservíveis e representa os fabricantes nacionais desses produtos – revela que, do início do programa, em 1999, ao fim de 2020, cerca de 5,6 milhões de toneladas destes materiais foram coletados e corretamente destinados: um volume equivalente a 1,1 bilhão de pneus de carro de passeio. Houve aumento de 82,1% na quantidade de pneus recuperados, entre 2010 e 2020: de 312 mil toneladas para 380 mil toneladas, respectivamente.

A Gestora para Resíduos de Equipamentos Eletroeletrônicos Nacional (Green Eletron) – uma das entidades que abordam a gestão dos resíduos eletroeletrônicos de uso doméstico no país – revela dados também positivos. Segundo a Green Eletron, o sistema foi capaz de reaproveitar cerca de 34 toneladas de metais ferrosos e não ferrosos e reciclar 22,3 toneladas de plástico em 2020, evitando a emissão de 195 toneladas de CO2.

O Instituto Brasileiro de Energia Reciclável (Iber), que gerencia o sistema de logística reversa das baterias de chumbo-ácido, informa que, em 2020, mais de 170 mil toneladas de chumbo-ácido foram recuperadas e reinseridas na cadeia produtiva. Além disso, quase 64 mil toneladas de solução eletrolítica foram recuperadas e/ou reutilizadas e mais de 19 mil toneladas de plásticos foram recicladas.

Já a PROLATA Reciclagem gerencia a logística reversa de embalagens de aço (para consumo de alimentos prontos, ração animal, cosméticos, tintas imobiliárias, rolhas e tampas, entre outros) e revela ter dado destinação final correta a mais de 53 mil toneladas de embalagens entre 2016 e 2021 – sendo 22 mil apenas naquele último ano, deixando de emitir cerca de 81,5 mil toneladas de CO2 na fabricação de novo aço em relação a 2020.

Alumínio, papel, aço – A entidade Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), dedicada a promover o reaproveitamento dos resíduos sólidos no país, também traz números que mostram que estamos avançando. De acordo com o Cempre, o Brasil é o país que mais contribui para a reciclagem do alumínio no mundo. Em 2021, 98,7% das latas de alumínio foram recicladas: das 415 mil toneladas de latas comercializadas no período, 409 mil toneladas foram recicladas – isto é, praticamente todas as latas que foram colocadas no mercado voltaram ao ciclo produtivo.

A entidade revela também que o Brasil está entre os principais países recicladores de papel do mundo. Em 2019, 66,9% foi o índice de reciclagem para o papel em geral; em 2018, 5,1 milhões de toneladas retornaram ao processo produtivo. Se considerados apenas os papéis de embalagem, o índice fica em torno de 85%.

E mais: em 2019, 47,1% das latas de aço consumidas no Brasil foram recicladas: cerca de 200 mil toneladas de latas de aço pós-consumo retornaram para o processo de reciclagem e mais de 9 milhões de toneladas foram transformadas em novo aço. Em 2020, 42,7% das embalagens longa-vida, feitas de fibras de celulose, plástico e alumínio, foram recicladas no Brasil.

“A indústria da reciclagem no Brasil cresce com o posicionamento das grandes empresas no sentido da economia circular: o aumento da demanda por conteúdo reciclado movimenta todo o setor, criando oportunidades e novos empregos”, explica Fernanda Daltro, gerente- executiva do Cempre.

“No entanto, a base da cadeia – os catadores e catadoras, organizados ou não – continuam sendo o elo frágil, com menos investimentos, criando um gargalo para a expansão dessa indústria. Ações estruturantes são cruciais para que o fluxo de materiais recicláveis seja constante e em melhor qualidade, melhorando também o produto reciclado final”, pontua.

site do Cempre reúne iniciativas em prol da reciclagem e dicas de como levar adiante esta prática de forma eficaz.

Planares – O Brasil vem dando muitos outros passos largos em seus esforços para aprimorar a sua gestão de resíduos sólidos. Prova disso é o recém-publicado Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares), que traz diretrizes, estratégias, ações e metas para modernizar essa gestão e colocar em prática os objetivos previstos na política homônima. O novo dispositivo prevê o aumento crescente da recuperação de resíduos, estabelecendo uma meta de 50% de aproveitamento em 20 anos. Assim, metade do lixo gerado passará a ser valorizado por meio da reciclagem, compostagem, biodigestão e recuperação energética.

Neste contexto, a indústria brasileira de cimento é um dos segmentos que promete maior potencial para operar com grandes volumes de resíduo urbano não reciclável; o coprocessamento, uma das tecnologias de recuperação energética, transforma resíduos sólidos urbanos e industriais e passivos ambientais em energia térmica. No processo, o resíduo substitui parte do combustível que alimenta a chama do forno, que transforma argila e calcário em clínquer (matéria-prima do cimento). Segundo a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), esta é uma opção segura para a destinação adequada e sustentável de resíduos e de passivos ambientais em fornos de cimento.

O presidente da ABCP, Paulo Camillo Penna, está confiante. “O setor cimenteiro colabora com o progresso dos níveis de reciclagem, com a recuperação de áreas contaminadas, além da redução de emissão do gás metano. Com a tecnologia de coprocessamento, por exemplo, atuamos na redução das emissões de CO2 por meio do uso de diversas tipologias de resíduos – sendo a mais recente a utilização do Combustível Derivado de Resíduos Urbanos em substituição ao coque de petróleo, combustível mais utilizado no processo de fabricação de cimento”, afirmou.

Em suas metas, o setor de cimento estabeleceu, até 2050, a utilização de 55% de combustíveis renováveis de fontes como resíduos urbanos sem reciclabilidade, lodo de esgoto, pneus inservíveis, resíduos agrícolas (casca de arroz, caroço do açaí, casca do babaçu) e resíduos industriais. Além disso, a ABCP desenvolveu o Atlas de Recuperação Energética de Resíduos SólidosA ferramenta faz parte da nova versão do Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos (SINIR+), lançado pelo Ministério do Meio Ambiente, e mapeia as regiões com maior potencial de aproveitamento de resíduos para geração de energia. Traz ainda informações interativas e painéis que detalham a gestão dos resíduos sólidos em todo o país.