Indústria Verde

Evolução rumo à educação, diversidade e conservação ambiental

Diretora global de sustentabilidade da Natura, Denise Hills, fala sobre como a empresa transforma desafios socioambientais em oportunidades de inovação e desenvolvimento

Denise Hills tem uma oportunidade singular de fazer a diferença: como diretora global de sustentabilidade do grupo Natura &Co para a América Latina, ela lidera, na região, a implementação da estratégia e das metas do grupo rumo a uma atuação excepcional neste área.

À frente do Centro de Expertise de Sustentabilidade da Natura – área estruturada para garantir que os compromissos da empresa com a sustentabilidade estejam presentes de forma transversal –, Denise gerencia uma agenda variada, com metas ambiciosas: transformar os desafios socioambientais contemporâneos em oportunidades de inovação e desenvolvimento, gerando impactos positivos nos âmbitos social, ambiental e cultural.

“A Natura entende que todos somos interdependentes – e que a sociedade civil compartilha com governos e empresas a responsabilidade de encontrar soluções para um futuro mais sustentável”, diz a administradora, em entrevista à Indústria Verde.

Prova disso é que a Natura hoje audita sua cadeia de fornecedores quanto a aspectos sociais, ambientais, econômicos e de ética e integridade. Desde 2018, a empresa possui uma certificação UEBT  – União para o Biocomércio Ético –, que comprova a sustentabilidade da cadeia de fornecimento dos ingredientes naturais, incluindo os fornecidos por comunidades e outros parceiros, e assegura seu compromisso com a conservação da biodiversidade. Além disso, a Natura &Co promete perseguir até 2030 a certificação e a rastreabilidade total de suas cadeias de fornecimento críticas – como as de óleo de palma, mica, papel, álcool, soja e algodão.

Denise Hills foi a primeira mulher a presidir a Rede Brasil do Pacto Global, da Organização das Nações Unidas (ONU), e é membro do Conselho de Administração da iniciativa no Brasil. Além disso, é copresidente do conselho do Sistema B Brasil, membro do Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável e conselheira emérita do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Confira a seguir a entrevista concedida à Indústria Verde.

Indústria Verde – Sabemos que a Natura tem uma longa trajetória como ícone de sustentabilidade, de empresa e indústria que valoriza e cuida da biodiversidade brasileira, a bordo da inovação. A responsabilidade socioambiental está no DNA da Natura?

Denise Hills – O nosso compromisso com a sustentabilidade vem desde a fundação – tanto que nosso nome já evocava esse propósito. Começamos com a preocupação em ter ingredientes mais naturais em nossas fórmulas e, ao longo da jornada, a Natura só aprofundou seus compromissos. Fomos pioneiros ao lançar refis no Brasil há mais de 35 anos e, nas últimas décadas, evoluímos em nossos compromissos com a educação, com a diversidade, com a conservação ambiental e com uma vida digna para todos.

Em 1974, ao adotar a venda direta como modelo de negócios, a Natura deu início a um ciclo virtuoso de compartilhamento de riqueza com a rede e de geração de fonte de renda para muitas mulheres que ainda não participavam do mercado de trabalho como hoje.

Ao longo dos anos seguintes, continuamos evoluindo em nossos compromissos, seja com a educação – com a criação do Instituto Natura e da linha de produtos Crer para Ver, em que nós e nossas consultoras abrimos mão do nosso lucro em prol da educação – ou ainda com o desenvolvimento de negócios sustentáveis, a partir do nosso relacionamento com comunidades na Amazônia e a criação da linha Ekos, em 2000. Somos, ainda, uma empresa Carbono Neutro desde 2007, quando o tema da mudança climática era bem menos conhecido, embora já fosse uma questão premente.

teste

 
IV – De que outras formas esse DNA se manifesta hoje em dia?

DH – Para a Natura, o valor e a longevidade de um negócio estão diretamente ligados à sua capacidade de contribuir para a evolução da sociedade e para o desenvolvimento sustentável. A Natura foi a primeira empresa de capital aberto do mundo a ser certificada B Corp por seu modelo de negócios sustentável. O sistema B reúne empresas cujo sucesso comercial também está alinhado à geração de impacto positivo em questões socioambientais.

Um grande exemplo foi o desenvolvimento de negócios sustentáveis a partir da criação da linha Ekos há mais de 20 anos. Partimos de duas prioridades – a conservação do meio ambiente e o apoio ao desenvolvimento das populações locais – para desenvolvermos produtos a partir da maior sociobiodiversidade do planeta: a Amazônia. As fórmulas do portfólio Natura priorizam o uso de bioingredientes, de fontes renováveis. Com esse modelo pioneiro, desde 2011, a Natura já movimentou R$ 2,55 bilhões de reais em volume de negócios na região Amazônica. Além disso, estabelecemos relacionamento com 85 cadeias da sociobiodiversidade e desenvolvemos 41 bioingredientes, gerando renda para mais de 8 mil famílias de comunidades extrativistas e contribuindo para a conservação de 2 milhões de hectares de floresta na Amazônia – o que equivale a aproximadamente 2,7 milhões de campos de futebol.

Agora, como parte do grupo Natura &Co – formado por Natura, Avon, The Body Shop e Aesop – passamos a ter como meta ampliar para 3 milhões de hectares de área conservada na Amazônia até 2030, além de contribuir para zerar o desmatamento até 2025 via mobilização de públicos.

Por sermos carbono neutro há 15 anos, compensamos todas as emissões de gases de efeito estufa que não podemos evitar e contamos com metas de redução da atividade em toda a cadeia produtiva. Para estimular o papel das pessoas que vivem na floresta para a conservação do bioma local, a Natura desenvolveu o primeiro projeto de pagamento voluntário pela compensação de carbono dentro de sua cadeira produtiva, chamado de Carbono Circular. O projeto remunera as famílias de pequenos agricultores não apenas pela compra de insumos e repartição de benefícios, mas também pelo serviço de conservação ambiental.

Para enfrentar a questão dos resíduos e estimular a cadeia de circularidade, a empresa também possui o Programa Natura Elos que, desde 2017, realiza a estruturação de cadeias de logística reversa para abastecimento de materiais reciclados para a fabricação de embalagens e materiais de apoio, além de fomentar a formalização do trabalho e adoção de boas práticas de gestão e operação em todos os elos das cadeias.

Já os objetivos focados em direitos humanos incluem alcançar em 30% a diversidade em cargos de liderança; atingir a marca de 50% de mulheres em posições de liderança (meta já alcançada na Natura); e aumentar em 20% os investimentos nas principais causas em que atua, garantindo paridade de gênero e remuneração igualitária em toda a sua força de trabalho.

IV – Como arauta da sustentabilidade, portanto, que caminhos a Natura traça para a indústria brasileira em termos de inovação e aproveitamento adequado da biodiversidade nacional?

DH – Acreditamos em um futuro mais ecológico e ético, com o propósito de crescimento sustentável a partir de elementos tecnológicos, aliando a ciência, a inovação e a sabedoria dos agroextrativistas.

 Entendemos ser fundamental intensificar ações para enfrentar questões globais urgentes, como a crise climática e a proteção da Amazônia. Por essa razão, a Visão 2030 do grupo Natura &Co – batizada de Compromisso com a Vida – traça objetivos claros para o enfrentamento de grandes desafios contemporâneos.

 Para contribuir com a valorização e regeneração da biodiversidade, o grupo prioriza parcerias para estabelecer uma nova modelagem para a preservação da natureza, com ações alinhadas às Science Base Targets. Somado a isso, queremos intensificar nossas ações para proteger a Amazônia, aproveitando a experiência de mais de duas décadas na região, com meta de aumentar a área preservada de dois milhões de hectares para três milhões de hectares até 2030. A Natura &Co promoverá ainda esforços coletivos para garantir o desmatamento zero da Amazônia até 2025.

 Na frente de economia circular e regeneração, queremos avançar para além de um modelo econômico circular capaz de regenerar mais do que é necessário – para a produção garantir a circularidade de embalagens até 2030 e que 100% de nossos materiais sejam reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis. Além disso, queremos compensar a quantidade equivalente de embalagem plástica quando a infraestrutura de reciclagem não existe para atingir 100% do descarte responsável de plásticos.

IV – Igualmente, quais caminhos devemos tomar, como sociedade e como consumidores, por um futuro sustentável?

DH – A Natura entende que todos somos interdependentes – e que a sociedade civil compartilha com governos e empresas a responsabilidade de encontrar soluções para um futuro mais sustentável. Por isso, é fundamental que as pessoas se engajem em novos modelos de consumo e repensem suas atitudes, fazendo escolhas pautadas em um propósito que seja positivo para todo o planeta.

A Natura mantém três causas públicas cujos objetivos consideram agendas de desafios globais, especialmente os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Por essas causas, atuamos para ampliar a consciência de nossa rede de relações – como consultoras e consumidores – para construir uma sociedade mais sustentável.

As causas mencionadas acima são a “Amazônia Viva”, que resume um movimento para transformar a região amazônica em exemplo mundial de uma nova sociedade, que integra pessoas, floresta e cidades de forma sustentável; a “Mais Beleza Menos Lixo”, que defende que ofereçamos o máximo, usando o mínimo e reduzindo excessos – priorizando materiais de origem renovável ou reciclados; e a “Cada Pessoa Importa”, um pacto social que visa diminuir a desigualdade e a intolerância, promovendo a inclusão social por meio de ações efetivamente transformadoras.

IV –  Há uma versão brasileira para uma indústria sustentável ou essa ideia é necessariamente universal?

DH – Ao possuírem grande influência na agenda pública, as indústrias podem ser uma força para o bem na solução dos desafios socioambientais.

Em relação às peculiaridades da indústria sustentável brasileira, em especial, destacamos o seu imenso potencial em ser protagonista no uso eficiente e sustentável dos recursos naturais e da economia de baixo carbono. O Brasil tem um histórico importante no campo ambiental e tem também nele a oportunidade de vislumbrar um futuro melhor.

A Amazônia, por exemplo, é o maior ativo da biodiversidade do mundo – o que deve ser visto como um ativo econômico com muitas oportunidades de negócios. Com investimentos em tecnologia, pesquisa e estratégia podemos explorar essa vantagem competitiva e tornar o país uma potência em bioeconomia. A indústria tem papel fundamental no aproveitamento dessas oportunidades.