Indústria Verde

ESG: estas três letras são só o começo

Por Aron Belinky, pesquisador e professor da Fundação Getúlio Vargas*

 

Deu no Finnancial Times de 31/05/2022: a polícia baixou na sede da DWS, a maior gestora de ativos da Alemanha. Nada menos que 50 agentes adentraram as instalações da empresa em Frankfurt e, de quebra, visitaram, no prédio ao lado, o Deutsche Bank, seu maior controlador. O motivo? Investigar alegações de greenwashing ou, em outras palavras, de falsas alegações sobre os atributos ESG de produtos financeiros oferecidos pela empresa aos investidores. Este é sem dúvida um caso extremo, mas bem ilustrativo das tensões que emergem junto com a ascensão dessa agora tão famosa sigla.

Como sabido, a expressão ESG (pronuncia-se ê-esse-gê, e não ésg) vem da sigla em inglês para environmental, social and governance, ou ambiental, social e governança. Nasceu em 2004, mas ficou mesmo famosa de 2020 para cá, quando pesos-pesados das finanças e do empresariado (como a gestora BlackRock e o Fórum Econômico Mundial) passaram a deixar claro que em suas análises passariam a usar também esses critérios, em adição aos seus usuais parâmetros financeiros. Ao que tudo indica, finalmente se convenceram do que pesquisadores e ativistas vinham há tempos dizendo: as agendas do meio ambiente, da estabilidade social e da ética empresarial têm mesmo a ver com negócios. Revelam riscos, ameaças e oportunidades não capturadas por outros olhares, mais focalizados na economia e na produção.

Em um exemplo típico de demanda que induz a oferta, o interesse dos investidores levou ao rápido aparecimento de produtos financeiros com um “selo ESG”. O problema, porém, é que se trata apenas de uma sigla, e não de um conceito. Ela indica os ingredientes – atributos E, S e G – mas não diz nada sobre a proporção ou a qualidade de cada um. Alguns pequenos cuidados ambientais não tornam “verde” um negócio tradicional, assim como uns míseros pedacinhos de bacalhau não transformam em bacalhoada uma travessa de batatas ao forno. Ao vender a primeira e entregar a segunda, gestores e empreendedores arruínam sua reputação, provocam a ira de clientes e chamam à ação os xerifes do mercado, podendo chegar a situações como a da DWS. Mais que isso, porém, criam ceticismo e insegurança, causando um grande prejuízo ao mundo dos negócios, que realmente PRECISA de instrumentos confiáveis para rever sua situação e planejar o futuro.

A boa notícia é que são percalços passageiros: instabilidades naturais do momento inicial que estamos vivendo. Após décadas de alertas, os agentes de mercado finalmente entenderam que não podem seguir em voo cego, sem bons instrumentos que os orientem em um ambiente de negócios profundamente diferente do que havia no século XX. Os ingredientes já estão indicados na sigla da moda: o que virá agora é o árduo trabalho de combiná-los de formas consistentes, confiáveis e eficazes. Pela diversidade de situações e complexidade dos temas envolvidos, é certo que não haverá um padrão único, uma bala de prata que resolva todas as situações. Mas é certo, também, que os ingredientes já estão dados, e que a vantagem estará ao lado de quem melhor dominá-los.

 

*Sócio líder da ABC Associados. Pesquisador e consultor especialista em sustentabilidade, responsabilidade social corporativa e consumo consciente, é desde 2014 responsável técnico pelo Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 (ISE B3), dentre outros projetos relacionados à gestão e avaliação de empresas pela perspectiva do desenvolvimento sustentável. Atua também no campo de consumo consciente e negócios e investimentos de impacto. Doutor e Mestre pela EAESP/FGV, tem formação em Administração Pública pela mesma escola e em Geografia pela FFLCH/USP. Pesquisador e professor convidado da EAESP/FGV e outras instituições.