Indústria Verde

Entenda por que dessalinização e processos semelhantes são aliados da segurança hídrica para a indústria

Tecnologia é usada não somente para tratar água retirada dos oceanos, mas nos projetos de reúso. Brasil tem potencial para aumentar o volume de água dessalinizada usada na indústria e no abastecimento

O setor industrial é o terceiro maior consumidor de água do país. Porém, proporcionalmente, retira pouca quantidade da natureza. Em 2020, por exemplo, a indústria de transformação necessitou retirar apenas 9% de água dos corpos hídricos para produzir açúcar, etanol, energia, papel e celulose, e para produzir bebidas e abater e produzir proteína animal, segundo dados da Agência Nacional de Águas (ANA).

Vista durante muito tempo como uma tecnologia distante para as necessidades do Brasil, a dessalinização está crescendo e pode ser utilizada tanto para prover água para o uso industrial quanto para o consumo humano, entre outros.

“A dessalinização garante potabilidade e traz qualidade para a água: tira vírus, bactérias e garante que ela possa ser consumida com segurança”, afirmou Eduardo Pedroza, representante do Brasil na Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso de Água (ALADYR).

Pedroza explica que a tecnologia é usada não somente para produzir água potável a partir da água do mar, mas também nos projetos de reúso, pois também é preciso retirar sais da água poluída.

Procedimento – O processo para retirar os sais minerais da água acontece por meio de um tratamento físico-químico que remove, além dos sais, micro-organismos e outras partículas sólidas presentes nas águas salgada e salobra. Segundo Pedroza, o Brasil tem potencial para aumentar o volume de água dessalinizada usada na indústria e no abastecimento e tem demostrado interesse no assunto.

“Uma das evidências de que o Brasil tem dado atenção à dessalinização é que a importação das membranas de filtração tem crescido exponencialmente, o que mostra que estamos buscando usar essa tecnologia”, afirmou.

Uso na indústria – A ArcelorMittal, siderúrgica produtora de aço, aços longos e planos e bobinas, inaugurou, em 2021, a maior planta de dessalinização de água do mar do Brasil. A unidade de Tubarão, localizada na Região Metropolitana da Grande Vitória (ES), tem capacidade inicial para gerar 500 m³/hora de água dessalinizada, proporcionando maior segurança hídrica para a empresa e para o Estado.

Aproximadamente 96% da água utilizada pela ArcelorMittal Tubarão vem do mar e é utilizada para a refrigeração dos equipamentos de produção de aço. Os outros 4% são provenientes do Rio Santa Maria da Vitória. Para mitigar o uso destes 4%, a empresa executa projetos para reduzir esse consumo. Atualmente, o índice de recirculação de água doce da unidade é de mais de 97%.

Para a captação de água do mar, é utilizada a tecnologia de osmose reversa, bastante comum em países como Israel, Espanha, Estados Unidos e outros. Um dos diferenciais do projeto está na sua configuração por módulos. O primeiro tem capacidade para dessalinizar 500 m³/hora de água do mar (suficiente para abastecer cerca de 80 mil pessoas/dia), com possibilidade de serem acrescentados novos módulos futuramente.

“Para chegar nesse resultado, fizemos avaliação de várias alternativas tecnológicas para dessalinização, análises de qualidade da água do mar, discussões técnicas com fornecedores de todo o mundo, testes em laboratório e até visitas técnicas em plantas na Argentina e nos Estados Unidos”, explica Jorge Oliveira, CEO da ArcelorMittal Aços Planos América do Sul.

Com a tecnologia, a empresa recupera 50% da energia utilizada para fazer bombeamento de alta pressão nas membranas de osmose reversa, de acordo com o Oliveira. A planta consome cerca de 3MW de energia elétrica e representa menos de 1% do total de energia gerada pela própria ArcelorMittal Tubarão, que é autossuficiente.

O processo é de baixo impacto ambiental. A solução de sal em água resultante da dessalinização, a salmoura, é devolvida ao mar por um canal de retorno já existente na usina.

Reúso – Em funcionamento desde 2012, a Aquapolo é líder na produção de água para reúso na América do Sul e já forneceu 100 milhões de metros cúbicos de água tratada para a indústria, de acordo com o diretor-presidente da Aquapolo, Marcio da Silva Jose.

Uma das técnicas que a empresa usa, na etapa de tratamento terciário, é a separação física do lodo ativado da água por meio de membranas de ultrafiltração (TMBR – Tertiary Membrane Biological Reactor). A ultrafiltração é semelhante ao processo de dessalinização. Ela resulta numa água com qualidade superior e que pode ser usada diretamente nos processos industriais.

O projeto da Aquapolo surgiu de uma demanda do Polo Petroquímico de Capuava e funciona em parceria com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). A empresa dá novo uso para 100% da água tratada, nada é retornado para a natureza. A perda que acontece no processo volta para a estação da Sabesp e é diluída no esgoto que ainda será tratado. A água tratada é entregue ao polo petroquímico por meio de uma adutora de 17km. São beneficiadas 10 plantas de quatro clientes dentro do polo e, ao longo do trajeto da adutora, fora do polo, mais quatro empresas recebem a água tratada.

O polo petroquímico tem 97% da água utilizada em suas atividades proveniente da Aquapolo. A empresa trabalha com 50% da sua capacidade, que é de vazão de 650 L/s e tem planos para expandir a operação no futuro.