Indústria Verde

Brasil pode ser player fundamental na produção e exportação do hidrogênio verde

Potencial brasileiro de geração de energias renováveis pode levar o país a ser fornecedor essencial do novo combustível sustentável, que é vetor estratégico de descarbonização da indústria

A urgência em reduzir a emissão de carbono no mundo e conter as mudanças climáticas tem feito com que os países busquem novas soluções para gerar energia. A esse cenário, acresça o conflito entre Rússia e Ucrânia, que acelerou os planos nacionais de transição rumo à geração de energia baseada em fontes renováveis.

Dentre as possibilidades, a mais promissora é o hidrogênio verde, obtido a partir da eletrólise, ou seja, da quebra das moléculas de hidrogênio e oxigênio da água (H2O), por meio de eletricidade, utilizando fontes de energia renovável, por isso é chamado “verde”. A implementação dessa solução tecnológica tem crescido, pois não gera emissões, pode ser armazenado e transportado a grandes distâncias.

A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que, em 2050, 60% da produção total de hidrogênio no mundo virá da rota do hidrogênio verde. Além disso, o Hydrogen Council, iniciativa global de CEOs de empresas líderes em energia, transporte e indústria, estima que a neutralidade climática em 2050 poderá criar um mercado de US$ 2,5 trilhões para hidrogênio e equipamentos de célula de combustível, proporcionando empregos verdes para mais de 30 milhões de pessoas e evitando 6 Gt de emissões de CO2.

“O caráter disruptivo dessa tecnologia aliado à queda dos custos de quase 60% esperada até 2030 fazem do hidrogênio verde um vetor estratégico de descarbonização da indústria”, afirmou o gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Davi Bomtempo.

“Este ano, foi a primeira vez que o Plano Decenal de Energia 2031 do Brasil dedicou um capítulo ao hidrogênio. Isso mostra que está havendo um alinhamento de políticas, programas e iniciativas para que o hidrogênio verde entre para compor essa nova economia de baixo carbono, torne-se competitivo e integre os planos dos países para atingirem os compromissos assumidos em fóruns internacionais”, completou.

Futuro centro mundial – Como o Brasil é destaque mundial em relação ao uso de fontes renováveis – hidrelétrica, eólica, solar e biomassa – para geração de energia elétrica, temos, consequentemente, potencial para sermos um player fundamental na produção do novo combustível.

“O Brasil tem um potencial de energia renovável que daria para atender a demanda mundial. É um potencial gigantesco tanto hidroelétrico, quanto de biomassa e principalmente de energia eólica e solar. Para energia eólica e solar, as áreas mais promissoras estão no Nordeste e isso faz com que haja grande viabilidade para produzir o hidrogênio verde e exportar para Europa através de portos como Pecém e Suape”, afirmou o consultor de Energia da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), Jurandir Picanço Jr.

Pensando nesse papel, o Brasil já começou a investir no hidrogênio verde. Hoje os projetos somam cerca de US$ 20 bilhões e estão localizados nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Todos com foco principal na exportação.

“O hidrogênio verde é uma fonte que não gera emissões. Hoje fala-se muito em energia limpa e redução da emissão de carbono e o hidrogênio verde entra para compor essa nova economia e ser parte da estratégia dos países para atingirem os compromissos assumidos em alguns fóruns ambientais”, afirmou o gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNIDavi Bomtempo.

Complexo – No litoral sul do estado de Pernambuco, está o Complexo Industrial Portuário de Suape, que alia o conceito de porto-indústria. O local deverá abrigar em breve uma empresa que irá produzir hidrogênio verde.

O Complexo surgiu em 1978 para administrar a implantação do distrito industrial, o desenvolvimento das obras e a exploração das atividades portuárias. É considerado um dos maiores projetos de desenvolvimento da economia do país e oferece oportunidades em diversos setores. Lá, já foram firmados seis parcerias para a pesquisa e produção de hidrogênio verde, segundo o diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Porto de Suape, Carlos Cavalcanti.

Entre elas está uma parceria entre o porto, a Neo Energia e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) para, em 2023, ter uma molécula de hidrogênio a ser utilizada em veículos leves de pequeno porte. Em breve, também será anunciado um chamamento público para abrigar a instalação de uma usina de produção do hidrogênio verde no Complexo.

“É um projeto muito recente e que vem sendo demandado no mundo inteiro. A própria situação entre a Rússia e a Ucrânia fez com que esse processo se acelerasse ainda mais nos últimos meses, objetivando encurtar a dependência dos combustíveis fósseis. Além disso, os compromissos estabelecidos dentro dos pactos de descarbonização nas Conferências das Partes (COPs) fazem com que o hidrogênio seja parte da estratégia no sentido de transformar uma energia que é altamente emissora de poluentes em uma fonte energética com baixa emissão. Essas reflexões estão sendo feitas e vários arranjos já estão sendo implantados”, afirmou Carlos.

O Complexo irá disponibilizar uma área de 72 hectares, além da infraestrutura de acesso à área e o acesso ao canal para possibilitar o transporte do material. Uma vez estabelecido o contrato, a empresa que irá produzir o hidrogênio fica responsável em montar a unidade de produção, fazer o processo de licenciamento ambiental, os estudos de viabilidade econômico-financeira e técnica.

Mão de obra – A demanda por hidrogênio verde vem junto com a necessidade de profissionais qualificados capazes de viabilizar a produção do combustível. Tendo isso em vista, o SENAI já está se antecipando e iniciou projetos para formação de pessoal.

“Ainda não há uma demanda imediata por profissionais nesse sentido, mas isso virá com a produção e o SENAI está antecipando as ações para formação de pessoas em todos os níveis, desde integrador de energia até chegar ao desenvolvedor. Já temos projetos com a alemã GIZ – agência alemã de cooperação internacional que atua no Brasil na promoção do desenvolvimento sustentável – , com a chinesa CTG – grupo de energia limpa focado no desenvolvimento e operação de hidrelétricas de grande porte – e com uma indústria de petróleo que está interessada na produção do combustível”, afirmou Jefferson Gomes, Superintendente de Inovação e Tecnologia do SENAI Nacional.

Na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, o SENAI, em conjunto com a GIZ (sigla em alemão para Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit) e o apoio do Ministério de Minas e Energia, fechou uma parceria de R$ 12,5 milhões, que prevê construção de hubs regionais de educação e treinamento para apoiar a expansão do hidrogênio verde no país.

Segundo o diretor do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER) e do Centro de Tecnologias do Gás e Energias Renováveis (CTGAS-ER) do Rio Grande do Norte, Rodrigo Mello, há alguns anos, quando o gás começou a ser explorado, o SENAI formatou uma estrutura necessária para possibilitar o funcionamento da produção do combustível. Isso incluía desde o modelo a ser utilizado, passando pelo tamanho e as especificações dos laboratórios de educação, até discutir os perfis profissionais para a cadeia de produção do gás e a formação de profissionais.

Esse processo foi repetido em 2009 com a exploração das energias renováveis e agora o desafio é replicar esse projeto na formação de profissionais para a cadeia do hidrogênio verde.

“A ideia é que este centro desenvolva desde os cursos mais simples de operador, eletricista e instrumentador, até cursos de pós-graduação voltados para operador de fábrica, pesquisadores e professores”, afirmou Rodrigo. O projeto não deverá ficar restrito ao Rio Grande do Norte. “A ideia é expandir para todo o SENAI nacional e as outras instituições públicas e privadas que tenham interesse”, finalizou.