Indústria Verde

Bioeconomia à brasileira

Para o coordenador do Grupo de Estudos em Bioeconomia da UFRJ José Vitor Bomtempo, nossa megadiversidade é capaz de sustentar um modelo de desenvolvimento sustentável

O professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) José Vitor Bomtempo acredita que o Brasil precisa de um novo modelo de desenvolvimento baseado na bioeconomia – e que a nossa abundante megadiversidade é mesmo capaz de sustentar esse novo paradigma. “Mas o nosso maior erro em relação à bioeconomia é sermos ainda modestos demais”, diz o fundador e coordenador do Grupo de Estudos em Bioeconomia (GEBio) da UFRJ. Não por acaso, Bomtempo é considerado por seus pares um dos primeiros especialistas a trabalhar no Brasil com este conceito, que tem como base o uso de recursos genéticos da biodiversidade para criar produtos de alto valor agregado.

Mineiro da pequena Rio Pomba, na Zona da Mata de Minas Gerais, Bomtempo é doutor em Economia Industrial pela École Nationale Supérieure des Mines de Paris, na França, e dedicou-se a estágios pós-doutorais na Université Paris Dauphine e na HEC Montréal, Canadá. Foi pesquisador bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em Engenharia de Produção e Administração e é hoje pesquisador associado e professor colaborador do Grupo de Economia da Energia (GEE) do Instituto de Economia da UFRJ. Na mesma universidade, é também professor e pesquisador no Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED) do Instituto de Economia e pesquisador sênior do Programa de Pós-graduação em Engenharia de Processos Químicos e Bioquímicos (EPQB) da Escola de Química.

Na entrevista ao Indústria Verde, Bomtempo fala das vantagens e desafios da bioeconomia, de recursos essencialmente brasileiros e do potencial do país rumo a um novo paradigma de desenvolvimento.

Indústria Verde – Como podemos definir bioeconomia?

José Vitor Bomtempo – É uma boa pergunta, porque, à medida em que o conceito foi se difundindo e sendo usado por diferentes instituições, empresas, governos e agentes do mundo da economia, passou a ficar mais difícil de definir.

Em primeiro lugar, estamos lidando com recursos biológicos renováveis em um sentido bem amplo: é a biomassa, como a cana-de-açúcar; são os materiais que estão na biodiversidade, como os produtos amazônicos, o pirarucu, o açaí entre outros, e são também os recursos genéticos e químicos que existem no meio ambiente. A partir desses recursos biológicos renováveis, existe a bioeconomia.

Vamos imaginar que possamos construir uma nova economia a partir desses recursos, tendendo a substituir – em algum grau, ao longo de décadas e décadas – uma economia essencialmente baseada nos recursos fósseis. Como eu me desloco? Como me alimento? Como me visto? Como me cuido? No século 20, todas essas perguntas importantes eram respondidas por recursos fósseis. Mas agora, no século 21, a bioeconomia tem a ambição de substituí-los por recursos biológicos, numa perspectiva sustentável.

Há várias questões a serem consideradas: a produção desses recursos, a sua transformação em produtos e serviços, e a forma de lidar com os rejeitos e os subprodutos da própria conversão, em sociedades sustentáveis. Porque eu não posso me dar ao luxo, de uma perspectiva sustentável, de pegar o elemento mais rico de uma biomassa, transformá-lo, aproveitá-lo e perder o resto. Então a bioeconomia tem que ser também circular.

IV – Isto é, na bioeconomia tudo tem de ser aproveitado, certo?

JVB – Exatamente: para gerar energia e produtos, como materiais plásticos e outros que atendam a funções semelhantes; para gerar produtos químicos; alimentos para seres humanos e animais; cosméticos; e também para gerar serviços. A própria conservação tem um valor na bioeconomia, um valor cultural, social, de turismo ou até da própria conservação em si. Os serviços ecossistêmicos também fazem parte da bioeconomia.

A dimensão da inovação também é muito importante. O processo de transição energética (na verdade, há muitas transições em curso) e de uma economia tradicional a uma economia de século 21 (que vai lidar com a crise climática e outras exigências contemporâneas) exige muita inovação: ele não se sustenta se eu fizer apenas o que eu já sabia fazer da forma tradicional.

IV – Sobre as transições em curso envolvendo diversos sistemas tecnológicos –, está havendo um esforço concertado aqui no Brasil? Quem rege essas transições?

JVB – Não exatamente. Porém, por outro lado, a minha visão não é negativa. Acho que esse esforço concertado é fundamental, até para garantir continuidade e financiamento: algumas coisas precisam de políticas de estado, de governo, bem elaboradas. Mas há coisas interessantes acontecendo no Brasil. Em primeiro lugar, a partir de iniciativas técnicas internas, diversos ministérios têm abrigado coisas muito interessantes.

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações tem uma coordenação geral de bioeconomia que tem trabalhado em bases para políticas, ações e planos muito interessantes. O Ministério da Agricultura tem iniciativas quanto a bioinsumos. O Ministério de Minas e Energia tem planos de combustível do futuro, plano de hidrogênio. Alguns estados também têm suas iniciativas. A gente começa a ver até regiões e cidades interessadas em desenvolver coisas referentes aos conceitos de bioeconomia ou economia circular.

Acho que há muitas iniciativas, mas esparsas, sem uma coordenação central. Falta, evidentemente, reunir tudo isso em uma estratégia ou plano nacional de bioeconomia – algo mais ambicioso. O nosso maior erro em relação à bioeconomia não é ser ambicioso, é ser modesto demais: você tem um lugarzinho de protagonista que te espera se você fizer o dever de casa. Nossa ambição não é proporcional ao nosso potencial.

IV – Então quais são as vantagens competitivas do Brasil, em termos de bioeconomia, com relação ao restante do mundo? O fato de sermos um país megadiverso, por si só, nos torna protagonistas? Poderia citar algum outro país com esse potencial?

JVB – Esta pergunta é muito interessante. Os países grandes têm mais biodiversidade, evidentemente: Estados Unidos, China, alguns países asiáticos. Os pequenos países desenvolvidos – como os europeus – têm uma grande limitação de recursos. Nós, ao contrário, temos uma amplitude e variedade incomparável de recursos. Mas está todo mundo olhando para a Amazônia quando, na verdade, temos uma série de outros biomas diferentes e ricos: o Pantanal, o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica, o Pampa.

E temos também uma enorme capacidade de produção agroindustrial – construída principalmente lá pelos anos 1960, com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) como grande símbolo –, o que não deixa de ser um recurso muito importante para a bioeconomia.

IV – Mas essa capacidade agroindustrial não terá de recuar um pouco diante do necessário avanço da bioeconomia?

JVB – O agronegócio faz parte da agenda e já está se transformando. Há uma série de inovações na forma de produzir que vêm da bioeconomia – como, por exemplo, o controle biológico de pragas. Por meio da biotecnologia, é possível desenvolver determinados organismos que fazem esse controle. Há também o aproveitamento de resíduos, por exemplo.

A agroindústria tem uma agenda de transformação. A usina integrada do futuro é completamente diferente da usina do século 20. Vamos pensar em uma usina de açúcar e etanol, por exemplo. Pegava-se a cana, extraia-se o caldo, fazia-se açúcar ou etanol. Com o passar do tempo, passou-se a fazer uso crescente do bagaço para gerar eletricidade. Hoje, muitas usinas produzem açúcar, etanol e eletricidade. O próprio bagaço da cana pode ser usado para fazer mais etanol: o etanol de segunda geração. E há muito mais. A vinhaça, por exemplo, é um subproduto da produção de etanol: para cada litro de etanol resultam dez litros de vinhaça. Nos anos 1980, as usinas jogavam a vinhaça nos rios, mas, quando isso passou a ser proibido, a vinhaça começou a ser usada como fertilizante.

Hoje muitas usinas estão produzindo biogás que, devidamente tratado, se torna biometano. Como gás natural renovável, o biometano pode alimentar, por exemplo, os caminhões e tratores que circulam carregando a cana – que hoje são de diesel. O biogás pode gerar mais eletricidade e o biometano pode também ser injetado na rede de gás natural. Há ainda o CO2 gerado no processo de fermentação; algumas usinas estão recuperando esse carbono e buscando uma aplicação para ele.

Esta circularidade começa pelo processo de produção. Há 50, 60 anos, era completamente diferente; hoje há enormes ganhos em sustentabilidade. Já melhorou e há melhorias em curso. Aí entra, por exemplo, a biotecnologia avançada, que pode permitir grandes economias, grandes mudanças na produção. É um terreno forte em pesquisa, mas no qual precisamos de esforços mais intensivos. Em alguns terrenos avança mais, em outros menos.

Quanto ao sistema agroflorestal – ou à estratégia de produção integração lavoura-pecuária-floresta, também chamada de ILPF – há muitas iniciativas. Por exemplo: nós temos mais terra degradada do que terra sendo efetivamente explorada na produção – e essa terra degradada é um atrativo espetacular para a bioeconomia. Você pode reflorestar, plantar árvores para serem exploradas, que sejam úteis, como a macaúba. Por que não? E esse plantio pode ser conjugado com frutas, que também vão gerar valor. Há muitos projetos para explorar o recurso madeireiro de uma maneira sustentável.

E se você pensar nas outras culturas, como milho, soja, a floresta plantada. Nesta última, por exemplo, há um potencial extraordinário de valores, que faz parte dessa indústria tradicional que se desenvolveu. A cadeia da carne bovina, suína, de ave, e de leite também são cadeias que geram resíduos que geram subprodutos que fazem parte da agenda da bioeconomia.

IV – Neste cenário de transição, o papel da indústria brasileira nesse esforço rumo a um novo modelo de desenvolvimento baseado na bioeconomia é central, portanto?

JVB – A gente viu que, ainda mais no caso brasileiro, a bioeconomia não é só a indústria – mas, sem ela, boa parte do potencial de valorização desses recursos biológicos renováveis não vai acontecer. Se eu quiser explorar bem a minha riqueza em florestas plantadas, por exemplo, o setor industrial de papel e celulose vai ter de ser inovador e criar novos produtos derivados da celulose, da lignina – produtos químicos, energéticos, novos materiais. Então as grandes empresas da indústria têm um papel importante. Por outro lado, talvez a gente precise de mais empresas do tipo startup para atacar essas mil frentes possíveis de valorização.

Acho que precisamos de condições para que as empresas e indústrias entrem em um ciclo de investimentos mais agressivos na linha da bioeconomia, para deslanchar; esses investimentos seriam uma boa motivação para novas empresas que vão surgindo e complementando a exploração das incontáveis oportunidades que a bioeconomia brasileira oferece.