Indústria Verde

Aceleradoras têm papel fundamental para o desenvolvimento das startups verdes

Onda ESG aumentou a importância das greentchs e assessorias, que têm importante papel em garantir acesso a investimentos e capacitações, entre outros

Aliar produção e sustentabilidade tem sido um dos principais objetivos da indústria nos últimos anos. Assim, o setor produtivo tem buscado, cada vez mais, parcerias com startups verdes, também chamadas de greentechs, voltadas para tecnologia e inovação e que têm como objetivo desenvolver e aprimorar um modelo de negócio a partir de ideias inovadoras. Hoje, o segmento verde desse tipo de empresa é essencial para o desenvolvimento sustentável da indústria. No Brasil, elas já são 102, segundo a Associação Brasileira de Startups, e oferecem soluções para gestão de resíduos, logística reversa, projetos para diminuir emissão de carbono, tratamento de efluentes, entre outros.

Segundo relatório da Allied Market Research, o mercado global de tecnologia verde e sustentabilidade foi avaliado em US$ 10,32 bilhões em 2020 e deve atingir US$ 74,64 bilhões até 2030.

Neste contexto, as aceleradoras de startups de impacto têm assumido um papel importante na geração das condições que facilitam e promovam o empreendedorismo. As aceleradoras apoiam as startups na jornada de crescimento em seus diferentes estágios, como na fase de crescimento e escala, na gestão, processos, na gestão financeira, estrutura comercial, estrutura de pessoal, modelo de escala, entre outros.

Conexão – Focada em dar auxílio às startups há dez anos, o Inovativa de Impacto é um hub de aceleração e conexão de startups, gerenciado pelo Ministério da Economia junto com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), e execução da Fundação CERTI.

É um programa global, que inclui desde a parte de capacitação, até iniciativas de aceleração para negócios que já se iniciaram e estão em uma fase um pouco mais avançada. Segundo a coordenadora do programa, Ana Hoffman, o Inovativa de Impacto seleciona startups que, mais que gerar lucros, se propõem a causar alguma transformação social ou ambiental e se preocupam em mensurar e escalar essas soluções e o impacto que elas geram.

O programa de aceleração dura quatro meses e oferece capacitações, mentorias coletivas e individuais e treinamentos. A cada ano, são selecionadas 80 startups de impacto, sendo 40 por ciclo. Ao final de cada ciclo, as startups participam do evento “Experience”, em que os empreendedores apresentam as suas ideias para bancas de investidores.

Em 2018, a Yattó participou do programa de aceleração da Inovativa de Impacto. A empresa surgiu em 2014, dentro da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em um projeto de iniciação científica inicialmente voltado para a criação de sensores para lixeiras, e que foi evoluindo até se tornar um software de coleta de resíduos. Virou tecnologia de base para coletores no país inteiro. Hoje atua como uma empresa de consultoria e assessoria em logística reversa e economia circular.

Segundo o CEO da Yattó, Luiz Grilo, a aceleração teve um papel importante na startup: “Éramos jovens de 19 anos sem bagagem alguma de mercado e sem nenhuma experiência em empreender. A aceleração trouxe uma bagagem de mercado que a gente não tinha e isso encurtou o processo e deu direcionamento para o nosso negócio”.

Hoje já são mais de 10 mil toneladas de resíduos reciclados, mais de 500 cidades atendidas pela rede da Yattó, mais de 400 agentes ambientais impactados e R$ 10 milhões em resíduos movimentados, de acordo com Luiz Grilo.

Know-how – “A onda ESG trouxe a necessidade de mais olhares para problemas que são resolvidos por greentchs e, particularmente no Brasil, estamos vendo um crescimento potencial. Já temos fundos que olham só para as greentchs. Somos um país que tem vocação para ser protagonista nesse tema. Temos potencial para ser a capital das greentchs”, afirmou João Ceridono, coordenador de parcerias da aceleradora de impacto Quintessa.

Surgida em 2009, a Quintessa é focada em resolver problemas sociais e ambientais para as empresas. Oferece assistência por meio de programa realizado diretamente com as startups. Desde 2017, vem fazendo parcerias com grandes empresas, institutos e fundações, que oferecem programas de inovação aberta para se conectar com as soluções das startups.

“Prestamos um serviço de know-how para as startups e vemos que isso faz uma diferença enorme. Fazemos com que uma equipe de empreendedores que está se desenvolvendo como negócio tenha contato com o contexto específico das startups. É um trabalho de consultoria que gera um valor gigante para as startups poderem crescer e captar o investimento necessário e assim se relacionar com as grandes empresas”, explicou João Ceridono.

Já fizeram parte do programa de aceleração do Quintessa 250 startups verdes. Entre elas, a Boomera, startup que desenvolveu a metodologia CircularPack – que transforma resíduos em uma linha de produtos por meio de tecnologia, design e parcerias com cooperativas de catadores. O programa fez a empresa aumentar em seis vezes seu faturamento e passar a oferecer uma solução completa para a gestão de resíduos sólidos.

“Essa assessoria garantiu que os inputs e insights vindos do processo de mentoria fossem cada vez mais direcionados à nossa realidade, tornando tudo muito mais produtivo e assertivo”, afirmou o CEO e fundador da Boomera, Guilherme Brammer.

“Foi possível fazer do negócio de valorização de resíduos complexos uma realidade cada vez mais presente na vida das pessoas e tornar o conceito de engenharia circular uma premissa para que possamos escrever hoje, um futuro muito mais promissor e sustentável”, completou.

Investimentos – Além do know how oferecidos por meio de mentorias e auxílio na gestão do negócio, as aceleradoras também podem dar suporte em relação a investimento de capital para o desenvolvimento do projeto. A Amaz, outra aceleradora de impacto, trabalha com esse tipo de suporte, além das mentorias e acompanhamento das startups.

A Amaz surgiu do Programa de Aceleração Parceiros da Amazônia (PPA), e é coordenada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam). Conta com um fundo de financiamento híbrido (blended finance) de R$ 25 milhões para investimento em negócios de impacto nos próximos cinco anos. É o primeiro programa de aceleração voltado exclusivamente para a região Amazônica.

“A Amaz acelera e investe em projetos de impacto que estão buscando e gerando soluções inovadoras para os problemas ambientais da Amazônia. Dentro dessa necessidade urgente para conservação da Amazônia, acreditamos que esses negócios inovadores podem ser um dos caminhos para se conseguir um novo desenvolvimento para a região”, afirmou a gerente de investimentos e aceleração da Amaz, Ana Bastida.

A aceleradora busca negócios médios e pequenos que já estejam em desenvolvimento com seu produto ou serviço no mercado e com geração de receita. Ela tem como objetivo promover cinco ciclos de aceleração com seis startups em cada ciclo, totalizando 30 startups aceleradas ao final de cinco anos.

Durante os primeiros seis meses, a startup passa por um processo intensivo em que recebe um aporte de R$ 200 mil. Participa de oficinas de capacitação, tem assessoria jurídica, contábil e de marca individualizados, além de participar de rodas de troca de experiência com outras empresas e com especialistas. Após esse período, a startup pode captar mais de R$ 400 mil totalizando um investimento possível total de R$ 600 mil. O programa dura entre cinco e dez anos.

“Acredito que as aceleradoras têm o papel importante de dinamizadoras do processo, tanto para garantir acesso ao capital de investimento, quanto acesso a capacitações para que esses negócios consigam se estruturar em termos de gestão e governança e assim se aprimorar. Outro papel importante é conectar esses negócios entre si e com os atores relevantes do ecossistema. As aceleradoras são um elo importante entre os empreendedores e entre os atores do ecossistema”, afirmou Ana Bastida.

A Florestas S.A, startup que promove a regeneração da Amazônia por meio da implementação de agroflorestas em áreas degradadas, participa do atual ciclo de aceleração da Amaz. A startup se propõe também a melhorar a renda de pequenos produtores, mantendo a floresta em pé.

Segundo o diretor executivo da Florestas S. A, Thiago Campos, “a consultoria da Amaz trouxe novas conexões e novas visões que aceleraram principalmente a nossa parte de impacto. A gente já tinha um modelo financeiro interessante, mas crescemos ainda mais nossas projeções de impacto”.

Até 2030, a startup tem como metas recuperar 800 hectares de áreas degradadas, gerar renda direta e satisfação profissional a 80 produtores, fixar 80 mil toneladas de carbono e proteger e recuperar 4 mil hectares de reservas legais.