Indústria Verde

A bioeconomia como parte da solução para os desafios da mudança climática

Pesquisador-chefe do Instituto SENAI de Inovação em Biossintéticos, Paulo Coutinho fala da importância do modelo de produção para a transição verde do Brasil

A rede de Institutos SENAI de Inovação foi criada especialmente para atender às demandas da indústria nacional com foco em pesquisa aplicada – o emprego do conhecimento de forma prática – ao desenvolvimento de novos produtos e soluções que geram oportunidades de negócios. Os 26 institutos SENAI de Inovação que compõem a rede trabalham em conjunto, formando uma malha multidisciplinar e complementar, entre si e em parceria com a academia e a indústria, com atendimento em todo o território nacional. Hoje, a estrutura conta com mais de 930 pesquisadores.

Criado em 2015, o Instituto SENAI de Inovação (ISI) em Biossintéticos é destaque neste cenário por desenvolver soluções sustentáveis por meio da química e da biotecnologia industrial, empregando recursos renováveis e não-renováveis para oferecer novos produtos e processos. A ideia é promover uma grande integração entre a indústria e a academia.

À frente de uma equipe de especialistas em Biotecnologia, Transformações Químicas, Engenharia de Processos e Fibras, o engenheiro químico Paulo Coutinho assumiu o cargo de pesquisador-chefe do ISI em abril de 2022, após quase sete anos como gerente. Com mestrado em Processos Químicos e doutorado em Gestão da Inovação, Coutinho atuou por 33 anos em empresas privadas – como Petroflex, Lanxess e Braskem –, sempre na área de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), e participou do desenvolvimento de vários produtos que já foram colocados no mercado, com diversas patentes no Brasil e no exterior.

Em entrevista ao Indústria Verde, Coutinho fala sobre a importância da bioeconomia – um modelo de produção baseado no uso de recursos biológicos – na transição verde que o Brasil está levando adiante.

Indústria Verde – O que a bioeconomia representa para o mundo, neste momento, e como ela pode fomentar a transição para uma economia de baixo carbono no Brasil?

Paulo Coutinho – A bioeconomia é uma potencial solução para os desafios das mudanças climáticas, além de uma oportunidade para garantir melhorias referentes a aspectos ESG – ambientais, sociais e de governança corporativa.

Um estudo recente da Associação Brasileira de Bioinovação mostrou que a implementação de velhas e novas tecnologias relacionadas ao melhor aproveitamento dos produtos e resíduos da agroindústria – associadas a avanços que visam reduzir o impacto no uso da terra e da geração de gases de efeito estufa no setor – têm o potencial de gerar um adicional de US$ 400 bilhões ao PIB brasileiro até 2050, trazendo ainda uma redução de 1 Gt em termos de geração de CO2. Isso ajudaria o país a atingir suas metas, aumentaria a riqueza e ajudaria na distribuição de renda.

Convém ressaltar que este estudo voltou-se para a bioeconomia tradicional já existente: ele não aborda o potencial da bioeconomia referente à exploração da biodiversidade. Acredita-se que, em valores, esses números possam alcançar a mesma ordem de grandeza da bioeconomia tradicional – e sua exploração sustentável, além de garantir a manutenção dos biomas, traria um grande impacto social.

IV – Quais as vantagens competitivas do Brasil na área de bioeconomia? Qual a participação da indústria brasileira nesse processo?

 PC – O Brasil possui terra, clima propício e água para a chamada bioeconomia tradicional, além de constituir a maior biodiversidade do planeta. Possui ainda tecnologias básicas geradas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). No entanto, ainda não é protagonista quando falamos da nova bioeconomia, que busca o aproveitamento integral da biomassa, a redução do uso da terra e do consumo de água e o uso sustentável da biodiversidade.

Infelizmente, pouco se faz no caminho para a viabilização e criação das novas biorrefinarias, onde combustíveis e químicos – commodities e especialidades – seriam produzidos, aumentando a rentabilidade do setor. Além disso, a biodiversidade ainda é pouco conhecida, e os esforços para o seu mapeamento são esparsos e sem coordenação, contemplando ainda poucos estudos para a identificação das moléculas/compostos com potencial comercial. O governo não trabalha de forma coordenada e as empresas brasileiras precisam investir para encontrar e implementar as melhores oportunidades, ganhando assim o protagonismo global na área.

IV – E o que pode ser feito para viabilizar esse protagonismo?

PC – Para viabilizar as vantagens ainda potenciais é urgente aumentar os investimentos em P&D e apoiar a criação das cadeias produtivas que surgem a partir da implementação dos investimentos na área. O país precisa deixar de ser exportador dos produtos básicos e criar as cadeias necessárias para passar a exportar especialidades, produtos de maior valor agregado. Isso significa trabalhar em impostos e taxas, gerar subsídios temporários e incentivar a pesquisa – desde a básica até a aplicada.

Mais uma vez: é preciso criar um programa coordenado envolvendo governo, academia e empresas para mapear e identificar oportunidades na biodiversidade brasileira. Neste ponto, as escolhas precisam ser feitas. Os recursos são reduzidos. Precisamos criar modelos que identifiquem as melhores oportunidades para guiar subsídios e incentivos para áreas onde poderíamos ter resultados com vantagem competitiva garantida.

Ou seja, é preciso apoiar medidas visando alavancar o setor de bioeconomia no país. Incentivar a criação de uma estrutura tributária capaz de aumentar a criação das cadeias que levem a produtos de maior valor agregado – e aumentar os gastos nas buscas de oportunidades e em P&D.

IV – Como o Instituto SENAI de Inovação em Biossintéticos se insere neste contexto?

PC – O ISI Biossintéticos e Fibras possui quatro plataformas tecnológicas: Engenharia de Processos, Síntese Química, Biotecnologia e Fibras. Por meio delas, o ISI desenvolve trabalhos nas áreas da Bioeconomia tradicional e da Biodiversidade voltados para setores tais como óleo e gás, químico, cosmético, papel e celulose, alimentos, saúde etc. A partir da demanda de empresas, portanto, o ISI desenvolve novos processos e produtos usando biomassas/resíduos das principais culturas do país: cana de açúcar, milho, soja, eucalipto/pinus, etc.

O Instituto trabalha ainda na identificação de oportunidades e seus desenvolvimentos a partir da biodiversidade brasileira, apoiando não somente empresas, mas também comunidades dos diversos biomas nacionais. O ISI possui ainda uma área de inteligência competitiva com metodologia própria para avaliação das oportunidades, traduzindo a pesquisa em números que avalizam os negócios em potencial.

Nos seis anos de existência, o ISI já assinou cerca de 160 contratos para trabalhos de P&D com o mercado, dos quais mais de cem já foram entregues. Além disso, o Instituto possui diversos produtos já colocados no mercado e mais de uma dezena de patentes já depositadas, no Brasil e no exterior, em parcerias com empresas.