Indústria Verde

O passo a passo do descarte correto do vidro

Coleta seletiva, pontos de entrega e atitude do consumidor fazem a diferença para reciclar o material

O vidro é 100% reciclável, sem perda de qualidade. Ele pode ser utilizado infinitamente, além de ser retornável e reutilizável. Tudo isso gera menor consumo de energia e menor emissão de resíduos e partículas de CO2.

“A reciclagem faz parte do próprio processo produtivo do vidro”, afirmou Caroline Morais, Gerente de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro). “Diferentemente de outros materiais, o vidro é um material 100% mineral, sendo 65%, areia fundida. Basta ser novamente aquecido que ele se torna maleável e pode ser remoldado infinitas vezes. O vidro tem a vantagem de não ter limitação técnica/química para reciclagem e, por conta disso, as empresas buscam o caco tentando encontrar novas formas, novos parceiros para elevar a reciclagem”, completou.

No Brasil, são produzidas mais de 8,6 bilhões de unidades de vidro por ano, o que equivale a 1,3 milhões de toneladas do material, movimentando cerca de R$ 120 milhões. Deste total, são recicladas somente 300 mil toneladas, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro). Por ano, a economia de energia com a reciclagem é de cerca de 40% e 100 mil toneladas de CO2 deixam de ser lançados na atmosfera. Além disso, cada quilo de caco substitui 1,2 quilo de matéria-prima virgem.

Separação e coleta – Apesar de ser um material 100% reciclável, ainda existem gargalos para que o vidro seja totalmente reciclado. De 8,6 milhões de toneladas produzidas, apenas 300 mil toneladas são recicladas por ano no Brasil.

Segundo Caroline, da Abividro, a principal dificuldade para reciclagem é a etapa de separação e coleta do material: “São questões como se tem ou não coleta seletiva na cidade, se tem ponto de entrega, se o consumidor vai entregar o material separado. Muitas vezes, as etapas não acontecem. O consumidor não separa ou separa e a coleta especial não passa e o material vai para o aterro”.

Diretora da Massfix, empresa de reciclagem de vidro, Juliana Schunck, acrescenta que outra dificuldade é a dimensão territorial do Brasil, que dificulta a coleta em todas as regiões. “Vivemos num país continental. A logística em si é grande para poder atender a todas as regiões. Além disso, no Brasil, o transporte principal é o rodoviário, que tem custo alto diferentemente do ferroviário e do marítimo”.

Para diminuir esse gargalo, ambas ressaltam que é preciso conscientizar o consumidor para que ele faça a separação correta do lixo. “Nosso maior concorrente é o aterro sanitário porque o processo só é viável quando há a separação do material. Essa preocupação com a economia circular tem que ser de todos”, afirmou Juliana.

Aliado ao esforço do cidadão, está o município, que precisa fazer a coleta seletiva de forma correta. “No caso do vidro, é importante que a coleta seletiva do município seja feita sem caminhão compactador porque esse tipo de caminhão quebra o vidro e ele se mistura a outros materiais não sendo mais possível separar, inclusive tornando perigoso para os catadores”, explicou Carolina.

Apesar das dificuldades, Carolina afirmou que, nos últimos anos, observou-se um aumento de 40% no índice médio de reciclagem nas embalagens de vidro. “Em algumas indústrias específicas esse índice chega a 80%”, relatou.

Logística reversa – Depois de fabricada, as embalagens de vidro são utilizadas pelas indústrias de alimentos, bebidas e cosméticos. Os potes e garrafas são envasados, embalados e depois enviados para distribuição. Após consumidos, são descartados e aqui que começa o processo da logística reversa que irá culminar no retorno desse material ao mercado consumidor.

O primeiro passo é a coleta e o aproveitamento deste material por empresas beneficiadoras. A coleta é feita por estas empresas, que podem comprar a matéria de cooperativas de catadores, disponibilizar pontos de coleta voluntária em supermercados, nas ruas, restaurantes etc. ou fazer parcerias com grandes geradores de resíduos, como hotéis.

Em Brasília, a Green Ambiental realiza este trabalho há seis anos. “Hoje a Green envia em torno de 1.200 toneladas todos os meses para as empresas que fazem a reciclagem. Brasília gera aproximadamente 150 toneladas de vidro por dia o que dá em torno de 4.500 toneladas por mês. Temos 120 pontos de coleta de vidro de entrega voluntária e outros contratados por grandes geradores como supermercados e empresas. Algumas dessas empresas abrem esses equipamentos para o público. Também recebemos o material de cooperativas”, afirmou Roberto Bretas, sócio-diretor e fundador da Green Ambiental.

A Massfix também é uma empresa beneficiadora. Ela atua na reciclagem de cacos de vidros planos, vidros laminados e vidros de embalagens desde 1991. Hoje é a única empresa no mercado que recicla todo o tipo de vidro. Atualmente atua em grande parte da região Sudeste com mais de mil fornecedores, entre pequenos e grandes geradores de diferentes segmentos. Em 2021, a empresa recolheu 220 mil toneladas de vidro.

“Temos uma logística própria que atua diretamente em locais que produzem cinco toneladas ou mais por mês de resíduos, como hotéis, restaurantes, vidraçarias e, principalmente, cooperativas de catadores. Disponibilizamos contêineres para o vidro ser armazenado e aí fazemos a logística e o transporte desse vidro até uma de nossas fábricas. Contamos com mais de 70 veículos e fazemos a coleta em mais de 20 estados”, afirmou Juliana Schunck, diretora da Massfix.

Segundo a Abividro, sete empresas, mais a Ambev, têm uma fábrica própria de vidro, ou seja, fabricam embalagens de vidro e utilizam o material já usado no processo. “Os nossos associados são os fabricantes e os recicladores. Todo vidro do Brasil é de uma das nossas associadas”, afirmou Caroline.

A Owens Illinois (O-I) é uma das empresas fabricantes de embalagens de vidro. Ela é a maior deste tipo de embalagem do Brasil e a maior recicladora deste material. A O-I tem como meta atingir 50% de uso de cacos como matéria-prima para a produção de novas embalagens até 2030. “Os cacos são utilizados no processo de fabricação com total aproveitamento, resultando em embalagens novas com as mesmas características de qualidade das produzidas a partir de matérias-primas virgens, sendo que cada quilo de caco utilizado na produção de novas embalagens substitui o equivalente a 1,2 quilo de matérias-primas virgens, proporcionando benefícios para o meio ambiente e a sociedade”, segundo a empresa.