Indústria Verde

A sustentabilidade está na moda

Indústria têxtil brasileira se destaca com série de ações sustentáveis, do uso de recursos ao reaproveitamento de resíduos. Consumidor consciente também pode fazer a sua parte

A preocupação da indústria têxtil brasileira com a sustentabilidade é crescente e proporcional aos números do setor, que teve faturamento estimado em R$ 194 bilhões em 2021, de acordo com a Associação Brasileira de Indústria Têxtil (Abit). Um crescimento de cerca de 20% em relação aos R$ 161 bilhões do ano anterior. Além disso, na comparação com 2020, a produção dos têxteis (insumos) aumentou 12,1%, e a das confecções nacionais (vestuário, meias e acessórios, linha lar e artigos técnicos), 15,1%. O varejo de roupas cresceu 16,9%.

Dados da Abit atestam ainda que, em 2020, a confecção nacional criou 7,93 bilhões de peças, ou 1,91 milhões de toneladas de materiais têxteis. Diante de tudo isso, fica uma pergunta: como lidar com esta profusão de produtos para que não se transformem, depois, em um mar de resíduos?

A agenda socioambiental do setor inclui série de ações positivas e robustas em toda a cadeia produtiva da indústria têxtil e da moda. Inclui preocupação com o uso sustentável e eficiente dos recursos naturais na produção, invetimentos em inovação industrial para o reaproveitamento de fibras e materiais antes descartados, uso e abuso da criatividade para investir em economia circular e reciclagem, e até esforços individuais de pequenas empresas para diminuir os seus próprios resíduos têxteis.

“Os setores têxtil e de confecção no Brasil têm uma oportunidade ímpar de tornar o país um destaque internacional nessa agenda, por tudo o que já está sendo feito e pelos projetos que estão em andamento”, diz o presidente da Abit, Fernando Pimentel.

Dentre estas ações, destaque para iniciativas de utilização e reprocessamento dos resíduos de algodão e das garrafas PET, gerando novas fibras, e da coleta de produtos já sem uso que voltam ao sistema recuperados. As ações incluem ainda intenso trabalho junto a grupos de grandes varejistas por meio de certificações de compliance, com diversas frentes ocorrendo em vários campos, seja no têxtil, seja na área de matérias-primas, confecção, pós-consumo, além das várias patentes voltadas ao aproveitamento e valorização de resíduos.

O Brasil tem hoje a maior cadeia têxtil completa do Ocidente e ocupa posição privilegiada para dar essa resposta e agir de forma efetiva à agenda da sustentabilidade, por abrigar desde a produção das fibras até os desfiles de moda, passando por fiações, tecelagens, beneficiadoras, confecções e forte varejo.

“São variadas e fortes iniciativas no setor rumo a essa agenda, mas não um caminho único”, acrescenta Pimentel. “São as diversas ações de atores públicos e privados que compõem o mosaico dessa resposta, que é também um desafio planetário. O assunto está em alta em todas as discussões e ações voltadas para o futuro do setor; todo o ambiente está permeado por essa agenda voltada à sustentabilidade”, completa. “Temos, por exemplo, a implementação de boas práticas alinhadas ao monitoramento da produção, que é um ponto crucial para o desenvolvimento responsável e sustentável”, destaca.

Desafios – Para Fernando Pimentel, um dos maiores desafios está em trabalhar todo um conjunto tão díspar de empresas, levando propostas práticas de funcionamento a partir da visão da sustentabilidade sob seus aspectos mais amplos – não só sobre o produto em si e das matérias-primas, mas dos modelos de negócios, na parte trabalhista e da governança empresarial.

“Em 2050, o mundo estará abrigando quase 10 bilhões de pessoas; hoje somos 7,4 bilhões. O desafio desse setor é vestir todo esse público; aumentar a produção sem comprometer a natureza, o meio ambiente, as relações laborais e as relações sociais que permeiam esse setor”, pondera.

Dicas –  As roupas são bens que podem ter sua vida útil prolongada: elas podem ser vendidas, trocadas, presenteadas,  doadas, reformadas, customizadas ou reaproveitadas e recicladas, por meio da criatividade, por pessoas, empresas e indústrias que se dedicam a dar a elas novos usos. O consumidor deve sempre se lembrar de conferir com as suas marcas preferidas se elas têm alguma iniciativa de economia circular, reciclagem ou reaproveitamento de seus produtos – para assim diminuir a sua pegada ecológica.

Uma dica de ouro é sempre se atentar para as instruções de lavagem que acompanham cada peça. Além disso, vale também utilizar serviços de conserto para aumentar o tempo de uso das roupas. Confira ao longo da matéria algumas dicas valiosas.

 

Pioneiro – A Abit lançou, em parceria com o Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai/Cetiqt), o Núcleo de Sustentabilidade e Economia Circular (NUSEC). Ele foi criado para atender uma demanda por informações qualificadas no âmbito das estratégias de sustentabilidade da indústria têxtil e de confecção do país. Em novembro de 2021, o NUSEC lançou o seu primeiro relatório de Sustentabilidade e Economia Circular, fornecendo um embasamento histórico e trazendo as principais oportunidades para a superação dos desafios do setor na esfera global.

A associação trabalha ainda atualmente na criação da Agenda Circular para o Setor Têxtil e Confecção, a fim de desenvolver e aplicar metodologias de diagnósticos e mensuração do nível de circularidade das empresas, para gerar uma agenda positiva e acelerar a transição circular. “A amplitude de participação dos atores é um dos elementos-chave para a representatividade dos resultados que serão obtidos como entidade de classe”, lembra Pimentel.

Cadeia sustentável – Uma das particularidades da indústria têxtil brasileira é a interligação positiva das cadeias produtivas. “Isso é puxado pelo consumidor final, pela comunicação, pela legislação, e vai descendo em camadas até chegar à origem básica dos produtos, à terra em que foram produzidos. Assim você tem uma rede de sustentabilidade e não apenas alguns elos sustentáveis”, explica Fernando Pimentel.

Um bom exemplo desta cadeia de produção sustentável é o movimento Sou de Algodão (www.soudealgodão.com.br), que surgiu em 2016 para despertar consciência coletiva em torno da moda e do consumo responsáveis. O movimento é singular no país e reúne todos os agentes da cadeia produtiva e da indústria têxtil desta fibra, desde o homem do campo até o consumidor final, passando por tecelões, artesãos, fiadores, designers de moda, estilistas e estudantes.

 

Logística reversa – A Plataforma Cotton Move, lançada em 2022, tem como foco reduzir o desperdício têxtil e aumentar a escala da reciclagem de roupas de algodão, gerando novos produtos com fibras recicladas.

A plataforma gerencia um sistema de logística reversa que já conta com mais de 200 pontos de descarte e/ou aquisição de novos produtos, nas cinco regiões do país, que serão encontrados por meio de uma ferramenta de geolocalização, disponível agora ao público.

Roupas de algodão em fim de ciclo de uso poderão ser levadas a coletores dispostos nas lojas das redes varejistas C&A, Reserva e Youcom, participantes pioneiras no projeto. Além das roupas de pós-consumo, a plataforma também reinsere no ciclo produtivo os descartes têxteis de pré-consumo das empresas parceiras.

Papel do consumidor – Como cidadão e sociedade podem contribuir com esta agenda ambiental? Para o presidente da Abit, o papel do consumidor e da sociedade são fundamentais. “Essas mudanças não acontecem de uma hora para a outra. É óbvio que nós, como consumidores, temos um papel relevante. Podemos dizer sim ou não para um produto a partir de sua origem, fabricação, das matérias-primas empregadas. Quanto mais bem informados forem os consumidores, mais exigentes serão na hora de consumir”, pontua o empresário.

“Em primeiro instante, um produto sustentável pode até custar um pouco mais caro do que um produto feito de forma convencional, mas a tendência é que os preços se igualem. Você pode até não vender mais se fizer um produto sustentável, mas certamente vai vender menos se não tiver um produto que atenda a essas exigências do consumidor”, alerta.

A comunicadora socioambiental Giovanna Nader – autora do livro Com que Roupa? (Editora Paralela, 2021), no qual oferece dicas para o consumo responsável – concorda que o consumidor tem papel crucial na cadeia de sustentabilidade da indústria têxtil nacional: ele é agente transformador e deve aprender a consumir de forma mais consciente.

“Roupa usada nunca vai para o lixo: eu sempre parto desse princípio”, diz Giovanna. Neste processo, a criatividade é a chave. “O que a gente pode fazer? Podemos vender, trocar, doar, presentear; podemos alugar ao invés de comprar; podemos pegar emprestado – e o que não usamos mais podemos transformar em coisas completamente diferentes.” Ela lembra que a internet é “um prato cheio de ideias sobre o que fazer com nossas roupas para que elas nunca acabem no lixo, onde não são recicladas de maneira correta, ficam no mundo por muito tempo e acabam virando os lixões de roupas”.

Na vida da Giovanna, a transformação de consumidora inconsciente a responsável não aconteceu por acaso – e a moda foi justamente o que serviu de porta de entrada a uma nova consciência socioambiental. Nas primeiras páginas de seu livro, ela diz: “Pelo menos, foi o que aconteceu comigo: primeiro, mudei meu jeito de consumir moda e só depois, anos mais tarde, adaptei todo o meu estilo de vida à minha nova forma de pensar”.

E se diz otimista, ainda que cautelosa: “Já estamos em um lugar muito diferente daquele em que estávamos há oito anos, por exemplo. Estamos avançando, sim, principalmente com relação à transparência na indústria da moda – mas o caminho ainda é longo.”