Indústria Verde

Tecnologias de ponta e reciclagem reduzem emissões na indústria do vidro

Fornos regenerativos, otimização da logística reversa e novos fornos modulares se destacam dentre as ações sustentáveis

A indústria do vidro no Brasil tem uma capacidade considerável de produção: 3,5 milhões de toneladas ao ano. Diante desta magnitude, o setor se organiza para ampliar, cada vez mais, suas iniciativas sustentáveis. Dentre elas, estão a melhor gestão das emissões de carbono, o que inclui o uso de energia renovável e de fornos regenerativos, a adoção de novas tecnologias, e o incentivo à otimização da logística reversa – um conjunto de ações para facilitar o retorno dos resíduos aos seus geradores, para que sejam tratados ou reaproveitados em novos produtos.

Nesse sentido, as iniciativas do setor de vidro estão alinhadas à estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI) rumo a uma economia brasileira de baixo carbono, baseada em quatro pilares: transição energética, mercado de carbono, economia circular e conservação florestal.

“Destacamos a competitividade brasileira do setor de vidro na pegada de carbono”, enfatiza Stefan David, gerente de sustentabilidade da Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro (Abividro). “Como chegamos a isso? Principalmente, com reciclagem e energia elétrica renovável. Toda a indústria sempre teve a necessidade de ser competitiva e de reduzir custos. Deixar de emitir CO2 na atmosfera vem com soluções tecnológicas sempre associadas, como o melhor aproveitamento da matéria-prima”, completa.

Reciclagem – Segundo a Abividro, cada indústria tem as próprias metas, mas a expectativa geral é reduzir de 2% a 3% o consumo energético a cada ano. Outra alternativa que tem sido pensada para alcançar esse resultado é aumentar o índice de reciclagem. “Quanto mais eu coloco caco de vidro no forno, mais baixa a temperatura de fusão necessária, pois já tem a liga molecular feita. A matéria virgem exige mais energia”, explica David.

O vidro demora cinco mil anos para se decompor, mas, em contrapartida, pode ser reciclado infinitas vezes. A reciclagem do material no Brasil movimenta aproximadamente R$ 120 milhões por ano, de acordo com o levantamento feito em 2018 pela Abividro. Ainda segundo a Associação, a substância não se perde no processo de reciclagem e pode ser 100% reaproveitada, sem perder a qualidade. Além disso, cada quilo de caco substitui 1,2 quilo de matéria-prima virgem.

Um dos maiores desafios do setor está, justamente, no incremento da captação de caco pós-consumo no mercado, com intuito de aumentar os índices de reciclagem e reduzir as emissões de gases de esfeito estufa (GEE). Há cinco anos, por exemplo, o Distrito Federal não tinha uma solução permanente de reciclagem. Houve medidas pontuais, como uma parceria feita há 15 anos que retirou toneladas de cacos de vidro da região.

Mas, há cinco anos, uma parceria foi firmada com a Green Ambiental, empresa de tecnologias ambientais, para montar uma operação regular e, assim, retirar todas as embalagens de vidro que se consegue recuperar.

Regenerativos – Os fornos de vidro trabalham em uma temperatura altíssima de fusão do material, 1.600°C. Todas as fábricas brasileiras usam os chamados fornos regenerativos, que reduzem o consumo energético em até 60%. Os regenerativos têm um circuito interno em que, em vez do calor sair direto pela chaminé, ele circula primeiro pelas paredes do forno e o reaquece antes de ser jogado de novo à atmosfera.

Ou seja, esse tipo de forno consegue aproveitar o calor da fumaça, antes de descartá-la, para aquecer o ar que, em conjunto com o gás, fará a combustão. No caso da indústria de fusão, as emissões de GEEs do setor estão atreladas, principalmente, à queima de combustível no forno (combustão estacionária) e ao processo de calcinação da matéria-prima.

Uma iniciativa que tem tido sucesso é a redução do peso de embalagens de vidro, sem alterar a característica da embalagem. As de cerveja, por exemplo, já pesaram 240g. Hoje, chegam a 60g. Assim, é possível produzir a mesma quantidade de embalagens, porém com menos energia para fundir o vidro e, portanto, com menor emissão de CO2. Ainda há a possibilidade de diferentes tipos de design.

Ruptura tecnológica – A introdução de uma nova tecnologia no país promete aumentar a eficiência energética da indústria do vidro. “Temos a perspectiva de duas novas fábricas no Brasil, em 2024, com uma nova tecnologia de forno. Não é mais o forno com uma estrutura fixa, como de tijolos, que são refratários, mas de aço inox, com isolamento externo, modular”, explica Stefan David.

Trata-se de investimento da maior fabricante de embalagens de vidro do mundo, a americana Owens-Illinois (O-I), que vai injetar quase R $1 bilhão em duas novas fábricas no Brasil. Serão R$ 990 milhões (US$ 180 milhões) no primeiro movimento de expansão de capacidade efetiva da indústria local nos últimos 10 anos. A previsão é que a nova produção vai elevar de 15% a 20% a capacidade total da indústria brasileira — ou em mais de 650 milhões de unidades por ano. As obras terão início entre novembro e dezembro.

“A demanda do mercado atual, com a oferta reprimida, associada às características de nosso mercado e de nossa dimensão continental é que direcionaram a decisão de implementar esse tipo de solução”, diz David.

A aposta bilionária no vidro brasileiro feita pela líder mundial na fabricação e embalagens vai alterar o cenário da produção no país, dando mais flexibilidade. A tecnologia chamada Magma (Modular Advanced Glass Manufacturing Asset) oferece eficiência energética elevada ao injetar no forno mais oxigênio. O oxigênio melhora a combustão e, assim, reduz o consumo de combustível e permite menor emissão. Além disso, a inovação permite a operação de linhas de produção menores, com um quarto de uma fábrica convencional. E esse conjunto reduz, portanto, as emissões tanto na produção, mas também no transporte.

Produção de informações – Dados levantados pela Abividro para a COP15, que aconteceu em 2009, revelaram que, já naquele momento, as emissões brasileiras de GEEs no setor eram iguais ou inferiores às europeias. Na categoria do vidro plano, a Europa registrava de 0,69 a 1,450 0 t CO2/t vidro embalado e um estudo referência de 2011 mostrava 0,73 0 t CO2/t vidro embalado. O Brasil registrava 0,71 0 t CO2/t vidro embalado em 2005, e 0,65 0 t CO2/t vidro embalado em 2012.

Não existem índices globais que permitam uma comparação mais ampla. A Europa tem o CPIV (Comité Permanent des Industries du Verre Européenne, ou Comité Permanente da Indústria Vidreira), mas China e Estados Unidos, por exemplo, não possuem literatura técnica que produza bases comparáveis entre as nações. Um dos poucos países com uma entidade representativa do setor e que se propõe a refletir sobre estratégias de políticas ambientais é o Brasil.