Indústria Verde

Primeiro engenho do Brasil movido a energia solar

Cachaça Orgânica Sanhaçu é feita também com reaproveitamento de água e resíduos

Produzir respeitando o meio ambiente, seja na cidade ou no campo, é cada vez mais urgente para garantir que recursos naturais ainda estejam aqui para as gerações futuras.

Buscando uma vida mais tranquila no campo, em 1993, o empresário Moacir Eustáquio, fundador da Cachaça Orgânica Sanhaçu, comprou 2,5 hectares de terra no interior de Pernambuco. Segundo Moacir, “a terra tinha meia dúzia de árvores, mato nenhum crescia”. Hoje, 28 anos depois, a fazenda é o primeiro engenho do Brasil movido a energia solar.

“Eu percebi que não podia salvar o planeta, mas podia salvar 2,5 hectares de terra. Eu escolhi a terra mais fraca que eu vi e, aos poucos, fui fazendo a transformação. Queria uma vida que, além de produtiva e útil, fosse agradável para mim e para as outras pessoas”, afirmou Moacir.

As iniciativas da fazenda estão alinhadas à estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI) rumo a uma economia brasileira de baixo carbono, baseada em quatro pilares: transição energética, mercado de carbono, economia circular e conservação florestal.

Maior qualidade – Após comprar a fazenda, Moacir iniciou um trabalho de reflorestamento até que foi possível a produção de produtos orgânicos. “Nós começamos produzindo hortifrutigranjeiros e fundamos as primeiras feiras orgânicas da região de Pernambuco. Meu filho optou por trabalhar com produtos ecológicos, mas a horta não era suficiente para o sustento da família. Procuramos um produto de maior rentabilidade e durabilidade, então surgiu a cachaça, que permite uma renda constante independente da estação”, afirmou Moacir.

Desde o início, o intuito era fazer um produto orgânico que respeitasse o meio ambiente. “Já começamos com a proposta de fazer uma cachaça orgânica e isso é um diferencial. O consumidor de orgânico é mais exigente e nós queremos trabalhar com esse perfil. Queríamos fazer um produto de qualidade, não estávamos em busca de ganhar dinheiro e sim de ter qualidade de vida por meio de um produto que respeitasse o consumidor e o meio ambiente”.

Energia solar – A cachaça começou a ser produzida em 2007. Hoje o engenho produz 25 mil litros por ano. Em 2016, o engenho iniciou com a energia solar na fábrica. Na propriedade, desde 1998, já era utilizada a energia solar por meio de dois painéis trazidos dos Estados Unidos. Os painéis ainda estão em funcionamento.

O sistema é ligado por meio da concessionária Celpe. A fazenda fornece energia para a concessionária e esta devolve a energia fornecida como bônus na conta da propriedade. Segundo a representante comercial do engenho, Elk Barreto, a conta de luz era em torno de R$ 700 por mês e hoje é em torno de R$ 50, podendo chegar a zero em alguns meses.

As placas fotovoltaicas de energia solar, além de abastecerem a planta agroindustrial, também suprem o consumo doméstico. Parte do bagaço da cana-de-açúcar é ainda fonte de alimentação da caldeira, transformando-se em energia térmica.

Reuso da água – Além do uso de energias renováveis, toda água utilizada para resfriamento na produção de cachaça é reutilizada proporcionando assim uma economia de mais de 50% do volume total.

Também é feito o reaproveitamento dos resíduos gerados na produção. Cerca de 1/3 de todo bagaço de cana-de-açúcar produzido é utilizado como combustível na caldeira. Os 2/3 restantes são aguados com vinhoto e quando acrescidos de matérias orgânicas, inclusive as cinzas oriundas da caldeira, formam um excelente adubo, retornando para o canavial como fertilizante natural.

A motivação para o reaproveitamento dos resíduos veio de uma experiência pessoal do empresário fundador da cachaça: “Eu fui criado às margens de um rio que foi destruído por usinas de cana-de-açúcar que despejavam resíduos nos rios matando todos os peixes. O rio ficou morto e, quando vim produzir a cachaça, eu sabia que um dos resíduos era o vinhoto e a gente tinha que dar um destino correto a ele. Decidimos utilizá-lo para fazer um composto orgânico que funciona como adubo para o canavial”.

Em 2015, a fazenda começou a receber visitantes interessados em ver como é o funcionamento do engenho. O objetivo das visitas, segundo Moacir, não era apenas complementar a renda do engenho, mas principalmente trazer uma mudança de consciência para as pessoas, mostrando como é possível trabalhar, produzir e se sustentar sem danificar o planeta.

“Quando eu recebo alunos de empreendedorismo, eu digo que qualquer empresa hoje, que não se preocupar com o consumidor e com o meio ambiente, não tem futuro. Se fizer qualquer coisa sem esses dois pilares vai ruir. Porque o meio ambiente está no limite. Primamos pela qualidade do produto e fazemos questão de proteger o meio ambiente. Queremos que nosso espaço seja ocupado por verde, para que possamos proteger planeta”, declarou Moacir.