Indústria Verde

Brasil é o país que emite a menor quantidade de CO2 por tonelada de cimento produzida no mundo

Setor investe em ações para reduzir ainda mais as suas emissões de gases de efeito estufa: valor corresponde a um terço da média mundial

O cimento, insumo fundamental da cadeia produtiva da indústria da construção, é componente principal do concreto, o segundo material mais consumido no planeta após a água, de acordo com a Global Cement and Concrete Association (GCCA). Não é difícil entender o porquê. O cimento é um elemento imprescindível ao desenvolvimento da infraestrutura de um país. É a base para a construção de casas, escolas, hospitais, estradas, ferrovias, portos, aeroportos, obras de saneamento e energia, entre muitas outras que proporcionam saúde e bem-estar à população e atendem as exigências da vida moderna.

O Brasil ocupa a posição de vanguarda como o país que emite a menor quantidade de CO2 por tonelada de cimento produzida no mundo.

O Brasil, por ser um país em desenvolvimento, tem um importante programa de infraestrutura a ser implementado. Além disso, o aumento da população, aliado aos crescentes padrões de urbanização, deverá impulsionar a demanda por cimento nas próximas décadas. Mas a produção de cimento – um processo industrial complexo e intensivo no consumo de matérias-primas e energia – é um enorme desafio dentro de um contexto de crise climática. É um processo intensivo na emissão de gases de efeito estufa (GEE). Globalmente, a indústria cimenteira responde por cerca de 7% de todo o gás carbônico emitido pelo homem.

Localmente, porém, a indústria do cimento traz boas notícias. No Brasil – em função de ações que vêm sendo conduzidas há décadas pelo setor, bem como pelo próprio perfil de emissões nacionais – essa participação cai para quase um terço da média mundial. Isso corresponde a 2,3%, segundo o Inventário Nacional de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito Estufa (GEE) não Controlados pelo Protocolo de Montreal (que integra a Comunicação Nacional do Brasil à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima/UNFCCC). São ações alinhadas à estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI) rumo a uma economia de baixo carbono, principalmente no que diz respeito a transição energética e economia circular.

A agenda de carbono é tão importante e estratégica para a indústria internacional do cimento que, há quase 20 anos, o setor criou o que é hoje considerado o maior banco de dados de emissões e indicadores ambientais de um setor industrial no mundo. Este banco de dados é abastecido por 48 das maiores empresas cimenteiras do planeta e oito associações de indústria, cobrindo cerca de 850 fábricas no mundo todo. Nele, o Brasil ocupa a posição de vanguarda como o país que emite a menor quantidade de CO2 por tonelada de cimento produzida no mundo, em 25 dos quase 30 anos da série histórica.

Mas esta posição de destaque representa um enorme desafio: produzir o cimento necessário ao desenvolvimento do país, buscando ao mesmo tempo soluções para reduzir ainda mais as emissões de CO2. Nasceu assim a necessidade de elaborar um roadmap – espécie de roteiro que aponte os desafios futuros do setor, além de estratégias para chegar a soluções.

Roadmap Tecnológico do Cimento – Diante do desafio de procurar meios para reduzir ainda mais as suas emissões de CO2, a indústria do cimento do Brasil – em parceria com a Agência Internacional de Energia (IEA), a Corporação Financeira Internacional (IFC), o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD) e especialistas de universidades e centros tecnológicos do país – desenvolveu o Roadmap Tecnológico do Cimento, um dos mais ambiciosos projetos do setor nas últimas décadas, e pioneiro entre outros setores industriais brasileiros.

Nele, foram mapeados diferentes cenários e alternativas capazes de acelerar a transição de baixo carbono do setor a curto, médio e longo prazos até 2050. As alternativas se concentraram em quatro principais pilares.

Alternativas – O primeiro pilar, dentre as ações para acelerar a transição, está relacionado às matérias-primas alternativas, por meio de adições e substitutos de clínquer – produto intermediário do cimento – como escórias siderúrgicas, cinzas volantes e fíler calcário. O segundo são os combustíveis alternativos, por meio da utilização de biomassas e resíduos com poder energético em substituição a combustíveis fósseis não renováveis.

O terceiro pilar são as medidas de eficiência energética, mediante investimentos em linhas e equipamentos de menor consumo térmico e/ou elétrico. O quarto pilar, por fim, inclui tecnologias inovadoras e emergentes, por meio da pesquisa e desenvolvimento em tecnologias disruptivas como a captura de carbono. “A partir desses cenários, a indústria espera reduzir 33% suas emissões projetadas, reduzindo 22 MtCO2eq em 2050, ou 420 MtCO2eq, cumulativamente, ao longo de todo o período. Isso implicaria reduzir a atual intensidade carbônica do cimento brasileiro de 564 kg de CO2 por tonelada de cimento (referência internacional) para 375 kg CO2/t cimento até 2050”, exemplifica Paulo Camillo Penna, presidente do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) e da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP).

Entre as alternativas propostas, o uso de matérias-primas alternativas, ou adições, representaria 69% do potencial de redução do setor, ao passo que os combustíveis alternativos respondem por 13%. Medidas de eficiência energética e captura de carbono (CCUS) representariam, cada uma, 9% do potencial. Curto prazo – Entre as ações de curto prazo para acelerar os potenciais apontados no Roadmap estava, prioritariamente, o avanço no uso de adições ou matérias-primas alternativas, principalmente por meio da atualização das Normas de Cimento no âmbito da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), defasadas em quase 30 anos.

Em julho de 2018, o setor atualizou as normas para permitir maior utilização de adições – especificamente o fíler calcário – em consonância com as normas mais modernas no mundo. Com isso, adotando esses novos teores em sua totalidade, o setor alcançaria uma redução potencial de cerca de 8% de suas emissões. Outra ação prioritária estava relacionada a combustíveis alternativos. Conseguiu-se aprovar, em outubro de 2020, a nova Resolução Conama de Coprocessamento de Resíduos em Fornos de Cimento, em substituição à primeira versão – que tinha mais de 20 anos. Assim foram atualizadas definições e parâmetros de emissão com base também em normas europeias contemporâneas. Ao mesmo tempo, foi também inserido o conceito de resíduo sólido urbano e formas de tratamento térmico destes resíduos, bem como de medicamentos vencidos.

O setor tem avançado de forma positiva na utilização destes combustíveis alternativos, representados por pneus inservíveis; resíduos industriais como borras oleosas, tintas, solventes e plásticos; resíduos urbanos; biomassas e resíduos agrícolas como casca de arroz, caroço de açaí e babaçu, moinha de carvão vegetal etc. Dos anos 2000 para cá, o percentual de utilização de combustíveis alternativos dentro da matriz energética do setor saltou de 9% para 31% (2019). Em termos absolutos, de 300 mil toneladas – em 2000 – para 1,5 milhões de toneladas de resíduos destruídos atualmente.

Economia circular – O coprocessamento de resíduos está plenamente inserido no conceito de economia circular, já que, ao mesmo tempo em que reaproveita o poder calorífico destes resíduos, elimina o passivo ambiental representado pelo acúmulo deles em aterros ou mesmo lixões. Ao mesmo tempo, pelo fato destes resíduos conterem teores menores de carbono que os combustíveis fósseis tradicionais utilizados pelo setor, como coque de petróleo, contribuem também para a redução das emissões de CO2 da indústria. O setor espera alcançar, conforme previsto no Roadmap, uma taxa de utilização de 55% destes combustíveis alternativos dentro da matriz energética do setor até 2050. São valores extremamente ambiciosos para a realidade nacional, mas plenamente atingíveis se a realidade europeia for usada como parâmetro: na Europa já se pratica, em média, uma taxa de substituição de 50%; a Alemanha e a Áustria são exemplos de patamares acima de 70%.

O SNIC – O Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) foi constituído em 1953 como representante legal do setor, destacando-se na represen­tação institucional da categoria. Interagindo no âmbito da indústria – por meio de órgãos públicos e privados, nacionais e estrangeiros – colabora como enti­dade técnica e consultiva em temas econômicos, tributários, ambientais e de mineração. Desenvolve estudos e formula indicadores do setor, que contribuem para que os valores gerados pela atividade cimenteira sejam compartilhados com milhões de pessoas e favoreçam o crescimento econômico, social e ambiental do país.