Indústria Verde

A (bio)economia circular da indústria de árvores plantadas para uma jornada sustentável, inovadora e inclusiva

Cerca de 90% da energia consumida pelo setor é renovável e, do total, cerca de 70% vem de autoprodução

A crise global do clima tornou-se urgência mundial, exigindo de todas os setores transformações concretas. Não há mais espaço, por exemplo, para a economia linear, baseada na extração de recursos para produzir bens e que descarta os rejeitos resultantes. A economia circular, na qual os resíduos são insumos para a produção de novos produtos, como ocorre na natureza, tornou-se modelo alternativo mais sustentável.

Os 9 milhões de hectares de árvores plantadas pelo setor estocam cerca de 1,88 bilhão de CO2 equivalente.

Outro modelo que surgiu para solucionar problemas socioambientais é a bioeconomia. Ela se vale da ciência e da tecnologia para desenvolver produtos inovadores – como alimentos, remédios, cosméticos, biocombustíveis e tantos outros –, a partir das propriedades de plantas, animais, microorganismos e demais recursos biológicos.

Nesse sentido, o Brasil é considerado por especialistas como o país com o maior potencial para liderar o mercado da bioeconomia no mundo. Temos grande quantidade de terras férteis e água abundante, grande biodiversidade, além de receber alta incidência solar e abrigar a maior parte do bioma amazônico.

Neste cenário, a indústria brasileira de árvores se estabelece como modelo e protagonista da bioeconomia e da economia circular. O setor é responsável por 7% do Produto Interno Bruto industrial do país e abriga 9 milhões de hectares de árvores plantadas e 5,9 milhões de hectares para conservação.

De acordo com a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), as ideias inerentes à sustentabilidade, bioeconomia e economia circular permeiam toda a produção. A associação reúne quase 60 empresas e entidades estaduais de produtos do cultivo de árvores plantadas, além de produtores independentes e investidores financeiros.

Mais verde, sustentável e inclusivo – Segundo a Ibá, 90% da energia consumida pelo setor é renovável – e, do total, cerca de 70% vem de autoprodução. Além disso, a indústria de árvores no Brasil reúne experiências de economia circular nos campos de energia, reciclagem de papel, circularidade da água e produção de novos produtos provenientes de resíduos. Isso tudo resulta ainda em outros benefícios, como a criação de empregos e a geração de renda, rumo a um caminho mais verde, sustentável e inclusivo.

Em termos de uso de água, a indústria nacional de celulose e papel diminuiu 75% da água necessária para produzir 1 tonelada de celulose – e algumas fábricas de painéis de madeira atingiram 100% de circularidade da água. A média de reaproveitamento de água no segmento de papel e celulose é de 43%; em painéis e pisos laminados, é de 12%.

Papel – A indústria nacional de produção de papel é de fato um eloquente testemunho da eficiência do setor em seus esforços para estabelecer uma economia circular. De acordo com a Ibá, isso é business as usual, pois trata-se de uma das indústrias que mais recicla no Brasil: em média, 70% do papel produzido no país.

Um bom exemplo é a CMPC, instalada no município de Guaíba (RS). A empresa é fornecedora de celulose e papel no mercado global, com base em três ideias: criar soluções inovadoras por meio da celulose; conviver com as centenas de comunidades vizinhas; e conservar o meio ambiente e os recursos naturais dos quais dispõe.

De acordo com Maurício Harger, diretor-geral da CMPC no Brasil, a empresa aceitou o desafio de liderar uma mudança de formato produtivo, de uma economia linear para a economia circular, em que os recursos utilizados não são descartados, mas sim reintegrados em novos processos de produção.

“Para chegar a esse objetivo, contamos com o Hub CMPC de Economia Circular, um espaço de 99 hectares, localizado em Eldorado do Sul (RS), responsável por recircular 100% das 600 mil toneladas de resíduos sólidos gerados por ano a partir da produção de celulose da empresa. Esse processo de reinserção emprega aproximadamente 160 pessoas e gera uma receita anual de mais de R$ 15 milhões”, detalha Harger.

Para conservar o meio ambiente, por exemplo, 20% das toras de madeira usadas pela unidade industrial da CMPC chegam por hidrovia, eliminando das rodovias cerca de 100 mil viagens de caminhão por ano e impedindo a emissão de 56 mil toneladas de monóxido de carbono na atmosfera. Além disso, as áreas de plantação de eucalipto são reutilizadas para novos cultivos, eliminando a necessidade de desmatar áreas de conservação ou de outras matrizes, como soja e milho.

Produtos e subprodutos – Mais de 5 mil produtos e subprodutos resultam da equação de conservação e produção sustentável na indústria brasileira de árvores, desde os mais conhecidos – como celulose; papel; embalagens e lenços de papel; papel higiênico, máscaras cirúrgicas e fraldas; pisos laminados e painéis de madeira; carvão vegetal e biomassa – a inovações como as fibras de tecido a partir de árvores.

Um exemplo é a viscose, que vem ganhando espaço na indústria têxtil em substituição aos fios sintéticos e representa cerca de 5% do mercado mundial. No momento, cerca de 70% dos tecidos usados no mundo são sintéticos, de base fóssil.

Entre os anos de 2000 e 2018, a participação da viscose de origem vegetal cresceu de 4,8% (2,7 milhões de toneladas) para 6,5% (6,9 milhões de toneladas) no mercado internacional. Estima-se que,  até 2023, esta participação atinja 7% (8,5 milhões de toneladas), segundo o relatório The Fiber Year.

Alternativas para materiais de origem fóssil – A indústria brasileira de árvores se empenha em estudar alternativas para materiais de origem fóssil a partir de árvores cultivadas. Resultam deste esforço constante, a celulose microfibrilada para têxteis (90% menos água e menos químicos); cristais de nanocelulose para celulares; e lignina, matéria-prima que promete mais sustentabilidade à produção de calçados, pneus, colas para madeira, lonas e pastilhas de freio – e como aditivo para formar o concreto (com redução do consumo de água e de cimento). A lignina também pode compor termoplásticos convencionais, proporcionando maior reciclabilidade.

Entre os produtos criados pelos resíduos da indústria brasileira de árvores, há ainda fertilizantes minerais e biológicos; adubos orgânicos; substrato; compostagem; cal hidratada; condicionadores e corretivos de acidez do solo; cloreto de cálcio; móveis; cerâmica de piso e telhas; camas de frango e baias de animais e, é claro, energia, criada por meio da biomassa, do carvão vegetal e do licor preto (subproduto do cozimento da madeira para extrair a celulose).